Edição Atual

v. 15 n. 4 (2020): Edição Especial: EA e COVID-9

Editorial

Sob o impacto da pandemia do novo coronavírus que assolou o planeta em 2020 e da já irreversível crise climática provocada por um modelo de civilização insustentável, a escritora, repórter e documentarista Eliane Brum escreveu o artigo “O futuro pós-coronavírus já está em disputa”, publicado originalmente em 04 de abril de 2020 no jornal El País, onde aponta alguns desafios para nossa reflexão e construção de novos cenários.

Em alguns trechos em especial do artigo, nós da Revista Brasileira de Educação Ambiental identificamos muita similaridade com bandeiras e lutas defendidas há décadas pelos educadores brasileiros, sobre as quais já temos alguma maturidade para nos posicionar. Eis os trechos:

“No estágio neoliberal do capitalismo todas as relações são, ao mesmo tempo, reduzidas ao consumo – e submetidas ao consumo. O que define cada ‘indivíduo’ é sua capacidade de consumir. Suas escolhas se reduzem a escolher entre produtos, marcas, preços, cores, formatos; sua liberdade é a de consumir o que sua renda permitir e a de desejar se exaurir mais para ter mais dinheiro para consumir. Toda a vida é mediada por mercadorias e, acima de qualquer outra identidade, você é consumidor.

O Brasil tem dois enfrentamentos urgentes para fazer: a disputa do presente, que é o novo coronavírus, e a disputa do futuro, que se dá também agora, no presente.

Parece impossível disputar o futuro nessas condições. Mas tudo o que temos é encontrar um caminho para minar a criatura chamada capitalismo, que no nosso tempo se expressa pelo neoliberalismo, e impedir que se regenere. Mais do que nunca, hoje lutamos pela vida.

[...]

Antes que alguém levante a balela do desenvolvimento ‘sustentável’ como a panaceia capaz de colocar o capitalismo de novo nos trilhos, vale escutar outro pensador, este indígena. Autor de Ideias para adiar o fim do mundo (Companhia das Letras), Ailton Krenak provocou ódio e ranger de dentes tempos atrás, ao afirmar que ‘sustentabilidade era vaidade pessoal’. Toda corporação, incluindo as mais destrutivas, tem hoje um gerente de sustentabilidade. Faz parte da capacidade de cooptação e adaptação do capitalismo. Sempre uma cretinice a mais.

Diz então a verdade terrível, que é também o ponto de partida de qualquer proposta para o futuro que formos capazes de esboçar: ‘Nós somos uma civilização insustentável, nós somos insustentáveis. Como é que então vamos produzir alguma coisa em equilíbrio?’. Este é o desafio”.

Lembrando que o Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global, documento identitário do movimento ambientalista brasileiro e mundial, já tratava de propor a construção de um novo modelo de civilização, onde o conceito de desenvolvimento deixasse de significar crescimento e transmutasse para outros valores fundamentais para a manutenção da vida no planeta e das sociedades humanas, vale apontar algumas proposições que Eliane faz nesse seu artigo:

“Nós, os que hoje estamos vivos, nunca enfrentamos uma ameaça como o novo coronavírus. Se tantos repetem que o mundo nunca mais será o mesmo, qual é então o mundo que queremos?

Se não o fizermos, a retomada da “normalidade” será a volta da brutalidade cotidiana que só é “normal” para poucos, uma normalidade arrancada da vida dos muitos que diariamente têm seus corpos esgotados. O rompimento do “normal”, provocado pelo vírus, pode ser a oportunidade para desenhar uma sociedade baseada em outros princípios, capaz de barrar a catástrofe climática e promover justiça social. O pior que pode nos acontecer depois da pandemia será justamente voltar à ‘normalidade’.

[...]

A tarefa é inadiável. Se não fizermos isso, o mundo pós-coronavírus será ainda mais brutal e o colapso climático se aprofundará. Para o extermínio da natureza não há nem jamais haverá vacina. Nosso futuro depende de enterrar o sistema capitalista que exauriu o planeta e nos trouxe até o tempo das pandemias. E para isso também não serve o comunismo que explorou, destruiu vidas, corroeu a natureza e oprimiu os corpos. Precisamos encontrar outros caminhos. E rápido. Muitos dizem que é ingênuo. Outros dizem que é impossível. O que é ingênuo é sentar na cadeira de pregos que se tornou o presente e esperar os efeitos da brutal superexploração da natureza (terminar de) deformar a face do planeta. Impossível é seguirmos vivendo como temos vivido”.

Ante essa provocação e chamamento, a Revista Brasileira de Educação Ambiental entendeu que os Educadores Brasileiros têm algo a dizer. Por este motivo, lançou um Edital-Chamamento para que pudéssemos dar (mais uma vez) nossa contribuição ao debate por meio da publicação desta Edição Especial de nossa Revista, cujo nome é: “Educadores Ambientais frente à crise de uma pandemia: qual futuro queremos e como construí-lo com justiça social e ambiental”. Tratou-se de uma oportunidade de nos debruçarmos sobre os labirintos de várias realidades Brasil afora e de transformarmos nossos ideais em propostas concretas, factíveis, que contribuam, de fato, para a implantação de Sociedades Sustentáveis.

Ao todo recebemos 48 artigos completos, dos quais selecionamos 35 para compor a edição, ficando os demais para edições futuras. enviar seus artigos. Os manuscritos foram analisados por um Comitê de Editores Convidados, liderados pela Educadora Ambiental Simone Mamede.

Para orientar os autores na construção dos cenários de futuro propostos, foi-lhes sugerido que tentassem apresentar algumas respostas às perguntas feitas pelo pensador francês Bruno Latour, também citado no artigo de Eliane Brum, com relação ao final do isolamento social devido à pandemia e para o enfrentamento da crise climática que vivemos:

1) Quais as atividades agora suspensas que você gostaria que não fossem retomadas?

2) Descreva por que essas atividades lhe parecem prejudicial/supérflua/ perigosa/sem sentido e de que forma o seu desaparecimento/ suspensão/substituição tornaria outras atividades que você prefere mais fáceis/pertinentes.

3) Que medidas você sugere para facilitar a transição para outras atividades daqueles trabalhadores/empregados/agentes/empresários que não poderão mais continuar nas atividades que você está suprimindo?

4) Quais as atividades agora suspensas que você gostaria que fossem ampliadas/retomadas ou mesmo criadas a partir do zero?

5) Descreva por que essas atividades lhe parecem positivas e como elas tornam outras atividades que você prefere mais fáceis/harmoniosas/pertinentes e ajudam a combater aquelas que você considera desfavoráveis.

6) Que medidas você sugere para ajudar os trabalhadores/empregados/agentes/empresários/educadores a adquirir as capacidades/meios/receitas/instrumentos para retomar/desenvolver/criar estas atividades?

Perguntas às quais acrescentamos mais uma questão/síntese: Como construir Sociedades Sustentáveis frente à crise climática e de saúde mundial?

Também foram considerados diagnósticos e relatos de experiência que reportam ações de Educadores Ambientais frente ao momento de pandemia, tais como: soluções criativas e inovadoras, ações educativas que assegurem conforto emocional, qualidade de vida e segurança para as comunidades em cumprimento aos direitos fundamentais e constitucionais. 

Fica o registro de que esta Edição vai ao ar no dia 06 de agosto de 2020, data em que a humanidade relembra os 75 anos da trágica explosão de uma bomba sobre Hiroshima, provocando a morte de mais de 90.000 seres humanos. Nesta data de hoje, o número de mortos por COVID-19 no Brasil já havia superado essa triste marca. Gostaríamos de manifestar nosso profundo pesar às familias que perderam seus entes queridos. 

Como hoje também é o dia dos profissionaos da Educação, sigamos na tentativa de construção um mundo melhor.

Boa leitura a todos.

Simone Mamede - Editora Convidada para esta Edição Especial

Zysman Neiman - Editor Chefe da Revista Brasileira de Educação Ambiental 

Publicado: 2020-08-06

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