Injustiça estética

  • Gustavo Hessmann Dalaqua Universidade de São Paulo
Palavras-chave: Injustiça Estética – Augusto Boal – Amílcar Cabral – Injustiça Epistêmica – Democracia

Resumo

O artigo apresenta o conceito de injustiça estética, que designa qualquer dano cometido a um sujeito no que diz respeito à sua capacidade estética. A primeira seção reconstrói a noção de mentalidade colonial teorizada por Amílcar Cabral para mostrar como a injustiça estética é experimentada de maneira diferente pelos opressores e oprimidos. A segunda engaja criticamente com A estética do oprimido de Augusto Boal e destaca a mútua influência existente entre injustiça estética e injustiça epistêmica. A terceira indica como ambos tipos de injustiça podem ser resistidos por meio de uma análise de outras duas obras de Boal: Teatro do oprimido e O arco-íris do desejo. A quarta seção conclui argumentando que a injustiça epistêmica é infensa à democracia e explicando por que um regime democrático requer justiça estética, conceito normativo segundo o qual todos os cidadãos são igualmente aptos a ter seus modos de ver e sentir os temas públicos levados em conta na deliberação política.

Referências

AUSLANDER, Phillip. “Boal, Blau, Brecht: the body”. In SCHUTZMAN, Mady; COHEN-CRUZ, Jan (Eds.). Playing Boal. London: Routledge, 2002, p. 134-143.

BARTKY, Sandra Lee. Femininity and Domination: Studies in the Phenomenology of Oppression. London: Routledge, 1990.

BHARGAVA, Rajeev. “Overcoming the epistemic injustice of colonialism”. Global Policy, v. 4, n. 4, p. 413-417, 2013.

BINZER, Ina von. Os meus romanos: alegrias e tristezas de uma educadora alemã no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1994.

BOAL, Augusto. Técnicas latino-americanas de teatro popular: uma revolução copernicana ao contrário. São Paulo: Hucitec, 1984.

BOAL, Augusto. Aqui ninguém é burro! Rio de Janeiro: Revan, 1996a.

BOAL, Augusto. O arco-íris do desejo: método Boal de teatro e terapia. Rio de Janeiro: Editora Record, 1996b.

BOAL, Augusto. 200 exercícios e jogos para o ator e o não-ator com vontade de dizer algo através do teatro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999a.

BOAL, Augusto. Jogos para atores e não-atores. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999b.

BOAL, Augusto. Teatro do oprimido e outras poéticas políticas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.

BOAL, Augusto. The Aesthetics of the Oppressed. Trans. A. Jackson. London: Routledge, 2006.

BOAL, Augusto. A estética do oprimido. Rio de Janeiro: Garamond, 2009.

BOAL, Augusto; EPSTEIN, Susana. “The cop in the head: three hypotheses”. TDR (1988-), v. 34, n. 3, p. 35-42, 1990.

CABRAL, Amilcar. Return to the Source: Selected Speeches by Amilcar Cabral. New York: Monthly Review Press, 1973.

CABRAL, Amílcar. A prática revolucionária: unidade e luta II. Lisboa: Seara Nova, 1977.

COUDRAY, Sophie. “Le théâtre de l’opprimé. Quelles perspectives émancipatrices pour un théâtre d’éducation populaire ?” Recherches & Éducations, n. 16, p. 65-77, 2016.

CUDD, Ann E. Analyzing Oppression. Oxford: Oxford University Press, 2006.

DE LEÓN, Jennifer Ponce; ROCKHILL, Gabriel. “Toward a compositional model of ideology: materialism, aesthetics & cultural revolution”. Philosophy Today, no prelo.

DINNEEN, Mark. “Teatro legislativo: estimulando a ciudadanía ativa”. Teatro: Revista de Estudios Culturales / A Journal of Cultural Studies, n. 26, p. 141-161, 2013.

FERRARA, Alessandro. The Democratic Horizon: Hyperpluralism and the Renewal of Political Liberalism. Cambridge: Cambridge University Press, 2014.

FISHER, Tony. “Radical democratic theatre”. Performance Research, v. 16, n. 4, p. 15-26, 2011.

FOUCAULT, Michel. Histoire de la sexualité, tome I. Paris: Gallimard, 1976.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1974.

FREIRE, Paulo. Cartas a Cristina. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1994.

FRICKER, Miranda. Epistemic Injustice: Power and the Ethics of Knowing. Oxford: Oxford University Press, 2007.

GIBSON, Nigel C. “No easy victories: some reflections on Amilcar Cabral’s legacy”. In MANJI, Firoze; FLETCHER, Bill (Eds.). Claim No Easy Victories: The Legacy of Amilcar Cabral. Dakar: CODESRIA/Daraja Press, 2013, p. 17-30.

GOMES, Pedro Augusto Boal Costa; DE OLIVEIRA GONDAR, Josaida. “A emancipação pedagógica de Jacques Rancière e o Teatro do Oprimido como re-partilha do sensível”. INTERthesis: Revista Internacional Interdisciplinar, v. 12, n. 1, p. 192-208, 2015.

HOWE, Kelly. “Constraints and possibilities in the flesh: the body in theatre of the oppressed”. In HOWE, Kelly; BOAL, Julian; SOEIRO, José (Eds.). The Routledge Companion to Theatre of the Oppressed. London: Routledge, 2019, p. 76-85.

KIDD, Ian James; MEDINA, José; POHLHAUS Jr., Gaile (Eds.). The Routledge Handbook of Epistemic Injustice. London: Routledge, 2017.

LEAL, Dodi. Pedagogia e estética do teatro do oprimido: marcas da arte teatral na gestão pública. São Paulo: Hucitec, 2015.

MEMMI, Albert. Retrato do colonizado precedido pelo retrato do colonizador. Trad. R. Corbisier e M. P. Coelho. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1967.

MILLS, Charles W. “Ideology”. In KIDD, Ian James; MEDINA, José; POHLHAUS Jr., Gaile (Eds.). The Routledge Handbook of Epistemic Injustice. London: Routledge, 2017, p. 100-111.

MORRISON, Toni. The Origin of Others. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2017.

MUTNICK, Deborah. “Critical interventions: the meaning of praxis”. In COHEN-CRUZ, Jan; SCHUTZMAN, Mady (Eds.). A Boal Companion: Dialogues on Theatre and Cultural Politics. London: Routledge, 2006, p. 33-45.

ÖSTERLIND, Eva. “Acting out of habits – can theatre of the oppressed promote change? Boal’s theatre methods in relation to Bordieu’s concept of habitus”. Research in Drama Education, v. 13, n. 1, p. 71-82, 2008.

PATERSON, Doug. “Putting the ‘pro’ in protagonist: Paulo Freire’s contribution to our understanding of forum theatre”. In EMERT, Toby; FRIEDLAND Ellie (Eds.). “Come Closer.” Critical Perspectives on Theatre of the Oppressed. New York: Peter Lang, 2011, p. 9-20.

RABAKA, Reiland. Africana Critical Theory: Reconstructing the Black Radical Tradition, from W. E. B. Du Bois and C. L. R. James to Frantz Fanon and Amilcar Cabral. Lanham, MD: Lexington Books, 2009.

RABAKA, Reiland. Concepts of Cabralism: Amilcar Cabral and Africana Critical Theory. Lanham, MD: Lexington Books, 2014.

RATNER, Carl. “Psychology of oppression”. In TEO, Thomas (Ed.). Encyclopedia of Critical Psychology. New York: Springer, 2014, p. 1557-1570.

SANCTUM, Flavio. “Teatro do oprimido e homossexualidade: um arco-íris em construção”. In SANCTUM, Flavio; SARAPECK, Helen (Eds.). Teatro do oprimido e outros babados: a diversidade sexual em cena. Rio de Janeiro: Metanoia, 2015, p. 18-35.

SANTOS, Boaventura de Sousa. O fim do império cognitivo: a afirmação das epistemologias do Sul. Belo Horizonte: Autêntica, 2019.

SARAPECK, Helen. “A descoberta de si mesmo”. In SANCTUM, Flavio; SARAPECK, Helen (Eds.). Teatro do oprimido e outros babados: a diversidade sexual em cena. Rio de Janeiro: Metanoia, 2015, p. 36-40.

SCHECHNER, Richard; CHATTERJEE, Sudipto. “Augusto Boal, city councillor: legislative theatre and the chamber in the streets”. TDR (1988-), v. 42, n. 4, p. 75-90, 1998.

SHAWYER, Susanne. “Emancipated spect-actors: Boal, Rancière, and the twenty-first century spectator”. Performance Matters, v. 5, n. 2, p. 41-54, 2019.

VITTORIA, Paolo. “Paulo Freire and Augusto Boal: praxis, poetry, and utopia”. In HOWE, Kelly; BOAL, Julian; SOEIRO, José (Eds.). The Routledge Companion to Theatre of the Oppressed. London: Routledge, 2019, p. 58-65.

YOUNG, Iris Marion. Justice and the Politics of Difference. Princeton, NJ: Princeton University Press, 1990.

Publicado
2019-11-21
Como Citar
Dalaqua, G. H. (2019). Injustiça estética. Revista Limiar, 6(12), 101-129. https://doi.org/10.34024/limiar.2019.v6.9565