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ARTÍCULOS </Figure>

<Part>
<H4>KANT (1747-1766): DESENVOLVIMENTO DO PROBLEMA DA RELAÇÃO ENTRE A ALMA E O CORPO </H4>

<P>Kant (1747-1766): Development of the Problem of the Relationship between Soul and Body </P>

<Sect>
<H5>ELNORA GONDIM Y OSVALDINO MARRA RODRIGUES </H5>

<P>(UFPI, Brasil) </P>
</Sect>

<Sect>
<H5>Resumo </H5>

<P>O objetivo deste trabalho é analisar o problema da relação entre a alma e o corpo no período pré-crítico kantiano tanto nas prprias obras de Kant quanto na análise do contexto em que o pensamento kantiano encontrava-se inserido. </P>

<P>Palavras-chave: alma | corpo | obras de Kant | pensamento alemão. </P>
</Sect>

<Sect>
<H5>Abstract </H5>

<P>The objective of this work is to analyze the problem of the relation between soul and body in Kant's pre-critical period both in Kant's own works as the analysis of the context in which the Kantian found himself inserted. </P>

<P>Keywords: Soul | Body | Works of Kant | German Thought. </P>
</Sect>
</Part>

<Part>
<H4>Consideraçes iniciais </H4>

<P>O objetivo deste trabalho é analisar o problema da interação entre a alma e o corpo no período pré-crítico kantiano tanto no cerne das prprias obras de Kant quanto na análise do contexto, em relação a tal tema, que o pensamento kantiano encontrava-se inserido. Referente a esse período surgem várias dificuldades, as quais levam os historiadores do kantismo a elaborarem hipteses diferentes quanto à evolução do pensamento kantiano, de acordo com a significação que atribuem às influências de filsofos germânicos ou estrangeiros, e na sua interpretação da relação entre ciências naturais e filosofia. Enquanto alguns intérpretes estabelecem períodos precisos e distintos entre 1747 e 1781, apoiando-se nas influências ou nos temas e problemas abordados por Kant em cada momento, outros procuram traçar uma linha contínua de evolução do pensamento kantiano que culmina com a redação da primeira edição da Crítica da Razão Pura. Kuno Fischer, por exemplo, é o primeiro estudioso a dividir o pensamento de Kant entre 1747 e 1781, e o faz fortemente influenciado pela concepção hegeliana da histria de que o desenvolvimento geral do espírito humano deve ser entendido como um processo triádico: passa-se da tese à antítese para acabar numa síntese, onde as duas primeiras se resolvem. Kuno Fischer demarca o período pré-crítico kantiano afirmando que esse começa com o escrito Pensamentos Sobre a Verdadeira Estimação das Forças Vivas e termina com o opculo O Primeiro Fundamento da Distinção dos Objetos no Espaço. Na visão desse comentador, a mudança de uma fase à outra não se dá através de uma evolução, mas por meio de uma ruptura. Fischer distingue três etapas no pensamento kantiano, nitidamente circunscritas, denominando-as: racionalismo-dogmático, empirismo-cético e criticismo. Entre 1747 e 1760, Kant trabalha sob a influência do sistema leibniz-wolffiano. Na década de 60 toma contato com o empirismo inglês e se deixa influenciar pela crítica de Hume à metafísica. Na década de 70 aparece a primeira exposição do criticismo. Assim, Kuno Fischer, ao interpretar a trajetria intelectual de Kant à luz do pensamento de Hegel, estabelece o racionalismo leibniz-wolffiano como a tese kantiana, o empirismo cético de cunho humeano como a antítese e a união do racionalismo e do empirismo no criticismo como a síntese. No entanto, acreditamos que a clarificação frente à questão da relação entre a alma e o corpo vem sendo preparada ao longo do processo de desenvolvimento do pensamento kantiano. Nos escritos de 1747 a 1766 há uma dinâmica interna sob a forma de evolução quanto à questão do comércio psicofísico. Em seu primeiro escrito, datado de 1747, Kant tenta explicar a questão acima citada, no entanto tal tentativa de explicaçes deu lugar a inmeros problemas, porque a prova da relação entre a alma e o corpo era decorrente da tese de que a manifestação do modo de ação externa das substâncias era o movimento, porém Kant acha por bem, então, não determinar em que consistia o estado externo das substâncias imateriais, deixando isso, portanto, na obscuridade e não resolvendo a questão do comércio psicofísico, mas, pelo contrário, trazendo-lhes mais dificuldades. Na Monadologia Física, escrito de 1756, Kant afirma que o modo elementar da ação externa é a impenetrabilidade. Isto faz com que aconteça uma separação necessária da alma do corpo, porque se atribui à alma a característica da impenetrabilidade, nega-se o seu caráter imaterial e, caso se recuse tal característica, torna-se inexplicável a possibilidade do comércio psicofísico. Em 1755, na Histria Geral da Natureza e Teoria do Céu, Kant objetivava evidenciar através da experiência, a relação entre a alma e o corpo. Para isso basta observar que o esforço mental tem uma relação imediata com o cansaço físico. Dessa forma, a alma e o corpo se encontram em ação recíproca real. Sendo a corporalidade a causa das imperfeiçes e limitaçes do homem. Na Nova Dilucidatio, escrito de 1755, Kant desenvolve a tese contida na Histria Geral da Natureza e Teoria do Céu de que a ação recíproca entre as substâncias não se funda na essência delas, e sim, em um princípio exterior. Dessa forma, o espírito em 1755 era tratado com as mesmas categorias do mundo físico. Em 1764, nas Investigaçes sobre a Evidência da Teologia Natural e Moral, Kant descarta qualquer possibilidade da alma ser uma substância extensa ou ser o produto delas. Ele aceita a caracterização da alma como substância simples derivada da unidade da apercepção e afirma a não-compreensibilidade de como uma substância pode estar em um espaço sem ocupá-lo. Essa é, também, a conclusão que Kant chega nos Träume (1766). Dessa investigação decorre uma nova concepção para a metafísica: ela passa a ser a ciência dos limites da razão humana. O centro terico do pensamento kantiano agora são os problemas fundamentais da Ética. A missão da filosofia é a de circunscrever a rbita do destino moral e necessário do homem. </P>

<P>I-O problema do comércio psicofísico na filosofia alemã do seculo XVIII </P>

<Sect>
<H4>1. A posição de Wolff </H4>

<P>Wolff faz uma releitura da filosofia de Leibniz e, com a intenção de elaborar um &quot;corpus&quot; filosfico sistemático, modifica alguns de seus pontos centrais. Abandona a tese da representação como estado interno da mnada, porque ele acredita que, embora os elementos materiais sejam pontos metafísicos, estes não possuem uma força representativa. Reduz, ainda, o princípio de razão suficiente ao princípio de contradição. Finalmente, quanto à tese da harmonia preestabelecida, prefere fornecer-lhe apenas o caráter de uma hiptese provável. Entre 1720 e 1724, parecia que a tese da harmonia preestabelecida, sob a forma wolffiana, iria se impor nos círculos acadêmicos; porém, em 1724, a situação muda e a teoria do influxo físico se impe. Nesta teoria, em termos gerais, é afirmado que os entes corpreos relacionam-se com outra classe de seres que são os espíritos e encontram-se influenciados por eles. O motivo pelo qual a teoria do influxo físico se imps foi a oposição do pietismo à harmonia preestabelecida, que considerava a alma como uma máquina, com suas representaçes e voliçes dando-se de forma previsível como os movimentos mecânicos. Segundo as convicçes pietistas, a tese da harmonia preestabelecida conduz ao fatalismo, porque ao considerar o curso da vida como previamente fixado, nega a liberdade. </P>
</Sect>

<Sect>
<H4>2. Tese de Knutzen sobre o Comércio Psicofísico </H4>

<P>As idéias desenvolvidas por Knutzen têm como proposta uma fundamentação da tese do comércio psicofísico e um ataque à harmonia preestabelecida wolffiana. Ele pretende demonstrar como, a partir da teoria monadolgica de Leibniz, se pode derivar a teoria do influxo físico. Knutzen prope uma teoria monadolgica da matéria na qual concede às mnadas a capacidade de representação como modo de sua atividade interna. O espaço é então considerado como produto da ação real entre elas. A explicação de como ocorre </P>

<P>o comércio psicofísico reduz-se a elucidar como é possível uma ação das mnadas entre si. A relação entre a alma e o corpo encontra-se fundamentada na possibilidade de ação recíproca dos objetos em geral. Knutzen atribui ao movimento e à representação uma origem comum. </P>
</Sect>

<Sect>
<H4>3. A posição de Crusius </H4>

<P>Crusius afirma a imaterialidade da alma. Ele diz que a alma deve encontrar-se em contato com o corpo, em ação recíproca real, embora sejam substâncias heterogêneas. A explicação de como isto é possível ocorre tomando como base o conceito de existência. Este compreende as ideias de espaço e de tempo. O espaço e o tempo permanecem, mesmo se as substâncias que estão neles forem eliminadas. A alma e o corpo estão no espaço e no tempo. Todavia, apesar de terem isto em comum, diferem porque a alma tem a capacidade de pensamento e o corpo, por sua vez, tem a capacidade de movimento. Ocupar um espaço é ter a característica da impenetrabilidade. Ser impenetrável é ter a capacidade de exercer e sofrer forças. A alma humana, embora imaterial, também possui a característica de impenetrabilidade. Ela é capaz de efetuar açes reais com os corpos. </P>
</Sect>

<Sect>
<H4>4. A posição de Mendelssohn </H4>

<P>Para Mendelssohn é possível provar, de forma racional, que a alma é uma substância espiritual diferente do corpo. Como a alma tem a capacidade de desenvolver pensamentos, ela spode ser uma substância simples, pois pensar é reunir o mtiplo em um uno. Os corpos, ao contrário disto, são infinitamente divisíveis. Logo, a característica da simplicidade não pode ser encontrada neles. Sendo assim, a heterogeneidade da alma e do corpo torna incompreensível o comércio psicofísico. No entanto, esta incompreensibilidade não significa impossibilidade. O que é impossível, para Mendelssohn, é apontar um lugar para a alma no corpo. </P>
</Sect>

<Sect>
<H4>5. A posição de Baumgarten </H4>

<P>Baumgarten explica a relação entre a alma e o corpo através da tese da harmonia preestabelecida. Para ele a realidade se compe de mnadas simples, inextensas, que possuem a capacidade de representação. A relação entre a alma e o corpo é um caso de relaçes entre substâncias em geral. A alma, devido à sua simplicidade, é incorruptível. A incorruptibilidade é prova da existência de uma vida futura, isto é, da continuidade de uma pessoa, dando-se através da memria e significando, mesmo com a morte, a capacidade do homem adquirir novas representaçes, sendo estas mais claras e distintas, ocorrendo, assim, um aumento da racionalidade. O homem não é o ico espírito finito. Existem outros tipos, como as plantas e os a animais, cuja característica comum é encontrarem-se vinculados entre si, constituindo um reino denominado pneumático e moral. </P>
</Sect>

<Sect>
<H4>6. A posição de Euler </H4>

<P>Euler afirma que os seres materiais relacionam-se com outra classe de seres que são os espíritos. Nas Cartas a uma Princesa Alemã, Euler pergunta se a matéria tem a capacidade de pensar, afirmando, logo aps, que ela é inerte. Os entes corpreos não se modificam por si mesmos. Eles, através da inércia, somente se opem às forças externas. O pensar é diferente da força de inércia. Logo, nenhum corpo é por si mesmo, dotado de pensamento. O que diferencia o espírito do corpo é a capacidade de mudar por si mesmo e a simplicidade. O corpo é composto, tendo como características a impenetrabilidade e a inércia. O espírito, por sua vez, é simples e tem a liberdade como essência. A liberdade é uma atividade intrínseca que influencia o movimento dos corpos. Estes seres que têm a liberdade como princípio são os seres imateriais, dividindo-se em espíritos e almas. À alma corresponde um scorpo. Ela não tem o poder de controle sobre ele, somente controla as timas extremidades dos nervos, os quais se reem em uma parte desconhecida do cérebro. Euler explicita como se produz a visão na alma, afirmando que o objeto contemplado pelo espírito não é diretamente a imagem captada pelo olho, nem aquela refratada através dele e distribuída na superfície da retina. Esta imagem somente excita as ltimas extremidades das terminaçes nervosas que se encontram no fundo ocular e, através do nervo ptico, transmitem sinais ao cérebro, que é o lugar em que a alma obtém a percepção. Esta é a prova de que a alma é uma espécie de espírito, porque o corpo não pode, por si s, ter ideias nem efetuar reflexos. Ele sfornece sensaçes simples. O Ser Supremo estabelece a união entre a alma e o corpo e fornece ao corpo a capacidade de pensar. O pensamento advém de Deus e não do corpo. Contudo, a maneira como ocorre esta união é algo inexplicável. A alma reside no corpo, porém, não tem sentido perguntar pelo lugar específico em que ela se localiza. Que a alma se encontra no corpo é algo evidente. Ela atua nele, mas não se identifica com ele, nem se situa em um ponto determinado. A propriedade essencial do espírito é a liberdade. Ela é o seu atributo mais elevado. A gênese sensorial das representaçes é a causa que impede considerar </P>

<L>
<LI>
<Lbl>o </Lbl>

<LBody>pensamento como o atributo mais elevado do espírito. A liberdade encontra-se em um patamar superior ao pensamento. Ela nasce da reflexão da alma sobre sua prpria atividade. Liberdade e sentimento de liberdade encontram-se profundamente vinculados, tornando-se inseparáveis. A liberdade possibilita uma intuição pura, isto é, uma reflexão da alma sobre sua prpria atividade, na qual sujeito e objeto formam uma unidade. O homem, como espírito finito, encontra-se composto de alma e corpo. Pela relação necessária do homem com </LBody>
</LI>

<LI>
<Lbl>o </Lbl>

<LBody>mundo físico, a liberdade não se dá plenamente. Mas ela é a prova de evidência da existência dos espíritos, embora Euler afirme nada saber sobre esta existência. </LBody>
</LI>
</L>

<P>II-O desenvolvimento do problema do comércio psicofísico nas obras de Kant (1747-1766) </P>

<Sect>
<H4>1. Pensamentos sobre a Verdadeira Estimação das Forças Vivas </H4>

<P>No primeiro capítulo do Pensamentos Sobre a Verdadeira Estimação das Forças Vivas, Kant começa afirmando que cada corpo tem uma força essencial, que Leibniz chama de &quot;força ativa&quot;. Porém, esta noção leibniziana foi modificada nos sistemas metafísicos subsequentes que denominam a mesma como força motriz, acreditando-se, assim, que o corpo sproduz movimentos. Esta ideia, segundo Kant, é errnea. O movimento é o fenmeno externo de um corpo que se esforça por atuar. Todavia, esse corpo atua, também, quando perde sua atividade por causa de um obstáculo e fica em estado de repouso. Por este motivo, a força fundamental de um corpo é &quot;vis activam&quot;, não &quot;vis motricem&quot;, sendo o movimento um derivado da força ativa. Através dela, as mnadas efetuam açes recíprocas, das quais resulta o espaço e, através dele, a possibilidade do movimento. Partindo dessa concepção, Kant indaga-se como a alma pode atuar sobre outros seres e produzir mudanças. E ele responde: ela atua fora de si e produz mudanças, porque a &quot;vis activam&quot; a possibilita, significando isto que as substâncias encontram-se em interaçes recíprocas reais. A pergunta sobre como é possível que a matéria, que scausa movimentos, possa imprimir na alma representaçes e imagens, também não encontra dificuldades. Isto ocorre porque as substâncias materiais, quando estão em ação recíproca, atuam sobre tudo o que se relaciona com elas no espaço e, como a alma ocupa um lugar, as substâncias materiais atuam nela, modificando o seu estado interno, isto é, suas representaçes e seus conceitos. Kant, então, pergunta-se como é possível que a matéria, que somente produz movimentos, tenha uma força que engendra ideias e representaçes e, por outra parte, como a alma pode por a matéria em movimento. As dificuldades, segundo ele, desaparecem quando se enfatiza a ação das partes elementares da matéria relacionando-as a outras substâncias. Na medida em que a alma se relaciona com o exterior, seu estado interno é modificado pela ação das partes elementares da matéria, resultando disto a percepção. Uma substância pode ou não se relacionar com outra substância desenvolvendo uma ação exterior, pois, por conterem dentro de si a fonte de suas determinaçes, não precisam, necessariamente, se relacionar com outras substâncias para garantirem sua existência. No entanto, em tal caso, não podemos dizer que esta substância se encontra no espaço. Ser espacial é encontrar-se em açes recíprocas com outras substâncias. Logo, assim como a alma ocupa um lugar, deriva-se daí a prova do comércio psicofísico. Nota-se que Kant aborda a questão das forças metafisicamente, isto é, busca aplicar este conceito a todos os corpos em geral, e -serve-se disto para estabelecer as condiçes de possibilidade de todos os tipos de interaçes, inclusive aquelas entre os corpos e substâncias não corpreas. A consideração metafísica da força permite uma maior compreensão da natureza e de toda realidade. Kant, com sua doutrina da &quot;vis activam&quot;, acredita encontrar o caminho para explicar a ação entre as substâncias e, sobretudo, entre o corpo e a alma. </P>

<Sect>
<H4>2. Nova Dilucidatio -1755 </H4>

<P>Na seção III da Nova Dilucidatio, Kant se preocupa com os princípios de sucessão e de coexistência, afirmando uma concepção de movimento derivada das relaçes entre as substâncias. Ele afirma que as mudanças dos estados internos das mnadas são decorrentes da existência de uma ação externa real. As substâncias têm que se submeter às açes externas para terem mudanças de estado. Por conseguinte, da mudança dos estados internos da mnada deriva-se a realidade do comércio psicofísico. Todo espírito que apresenta alteraçes internas tem que estar unido a um corpo. A dependência das mudanças dos estados internos às açes externas implica que é colocado um papel importante no dado sensível para o conhecimento. Em suma, Kant afirma, nos princípios de sucessão e de coexistência, que as mudanças são possíveis por causa da relação e da dependência mua das mnadas. Como as mudanças existem e são reais, estas relaçes e esta dependência mua existem e são reais também. Elas são harmoniosas e têm como fundamento um princípio comum, que é Deus. </P>
</Sect>

<Sect>
<H4>3. Histria Geral e Teoria do Céu -1755 </H4>

<P>Nesta obra de 1755, Kant aborda o tema do comércio psicofísico diferentemente do escrito sobre as &quot;forças vivas&quot;. Ele não se preocupa em explicar como ocorre a relação entre a alma e o corpo, porque já fez isto anteriormente. O centro de inte¬resse kantiano, neste momento, é evidenciar o comércio psicofísico na experiência, afirmando que a ação recíproca entre a alma e o corpo manifesta-se nela. Para cumprir isto, basta observar que, diminuindo as forças corporais, diminuem-se as capacidades intelectuais. Se existe no homem uma estreita relação entre a alma e o corpo, daí se supe que algo semelhante ocorre com todo ser espiritual encarnado e, em consequência, surge a possibilidade de conhecer estes seres espirituais a partir da matéria à qual estão unidos. Como a matéria que compe os planetas tem variaçes conforme estes se encontram mais perto ou mais distante do sol, seria razoável supor que há uma hierarquia nos espíritos e aqueles habitantes que se encontram mais distantes do sol têm uma constituição mais perfeita do que os outros que se encontram mais prximos dele. Essas consideraçes anteriores oferecem a Kant a possibilidade de esboçar uma prova da imortalidade da alma. Ele afirma que todas as potencialidades do homem estão vinculadas a um corpo, sendo esta a causa de suas imperfeiçes morais e intelectuais. É a necessidade de dissolver a contradição que há entre o corpo e a alma que torna necessário o pensamento da imortalidade e, por causa disto, o da imaterialidade. </P>
</Sect>

<Sect>
<H4>4. Monadologia Física -1756 </H4>

<P>No seu escrito de 1756 Kant trata da sua teoria da matéria ou, mais precisamente, das mnadas, definindo-as como unidades que compem os corpos e fazendo uma síntese das teses de Newton e Leibniz em relação à questão do espaço. Afirma ele que, para acontecer um estudo frutífero das coisas naturais, deve haver uma síntese entre a metafísica e a geometria. Nesta síntese a metafísica e a geometria fornecem um caráter necessário e universal aos conhecimentos alcançados pela via experimental. Essa justificativa tem subjacente a conciliação da demonstração newtoniana da infinita divisibilidade do espaço com a afirmação leibniziana da composição do mesmo por substâncias simples. Kant aceita a divisibilidade do espaço e aceita, também, que no espaço, compondo-o, existem elementos que são indivisíveis. Na primeira seção do escrito de 1756, Kant define a mnada como uma substância simples, afirmando que todos os corpos são compostos de partes primitivas, absolutamente simples, isto é, de mnadas . Logo aps, Kant afirma que o espaço ocupado por um corpo é infinitamente divisível. Como pode, então, o espaço ser divisível, se ele é composto por elementos simples? Refletindo sobre esta afirmação, aparece uma suposta contradição. Porém Kant explica que os elementos simples da matéria, mesmo unidos a vários outros, nunca constituirão um corpo. Então, a mnada mesmo unida a várias mnadas, nunca constituirá o espaço. O que ocorre é que o espaço não tem substancialidade. Ele é um aspecto fenomênico da interação das mnadas. A mnada, em si mesma, é inextensa. Ela sconstitui o espaço através de suas relaçes externas, por meio de uma força que manifesta a sua presença. Esta força chama-se impenetrabilidade, e, satravés dela, os elementos simples podem ocupar um lugar. Há aqui uma relação da presença e da força, onde, por estar em algum lugar, o elemento spode, para isto, possuir a força da impenetrabilidade. O conceito de força é considerado, no escrito de 1756, como algo que se origina das mnadas, isto é, nasce com elas. Em suma, Kant diz que o modo de ação externa das mnadas é a impenetrabilidade. A matéria é composta de elementos simples, no espaço divisível. </P>
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<H4>5. Investigaçes sobre a Evidência dos Princípios da Teologia Natural e da Moral -1764 </H4>

<P>No escrito intitulado Investigaçes Sobre a Evidência dos Princípios da Teologia Natural e da Moral, na segunda consideração, Kant coloca a seguinte proposição: todos os corpos devem ser constituídos de substâncias simples. Esta proposição é, por si s, evidente. Um corpo é composto de um nero determinado de partes simples e no espaço ocupado por ele há um nmero igual de partes compostas. Cada parte simples ocupa um espaço. Um espaço é ocupado quando a uma coisa se ope outra por impenetrabilidade. Os corpos ocupam o espaço, porque possuem tal propriedade. Esta é uma força que pertence aos elementos simples dos corpos e manifesta uma ação oposta à outra força exterior. Os elementos simples dos corpos ocupam o espaço pelo fato de possuírem a característica da impenetrabilidade. Kant, então, se pergunta como os elementos primitivos sendo inextensos ocupam um espaço. Ele responde que a coisa é extensa quando ocupa um espaço independentemente da existência de outras coisas. Isso não ocorre nos elementos simples, por este motivo, ele não pode ser extenso. Mas sendo a impenetrabilidade a causa do elemento ocupar um espaço, há, então, no elemento simples, uma multiplicidade na sua ação exterior, sem haver esta multiplicidade nas suas partes internas. Daí resulta poder-se afirmar que o elemento não é extenso, porém ocupa um lugar. Em suma, nota-se que nas Investigaçes Sobre os Princípios da Teologia Natural e da Moral, Kant continua com a sua teoria da matéria exposta na Monadologia Física. Quanto à questão da alma, vê-se no segundo parágrafo, da consideração III deste escrito, que Kant concorda com a demonstração feita pelos filsofos sobre o caráter imaterial da mesma. Porém, o que convém descartar, é que ela tenha uma natureza material, que ela seja uma substância igual aos elementos simples da matéria, que ela exista no espaço por causa da impenetrabilidade e que ela constitua com outras coisas algo extenso e com massa. Segundo Kant, caso ocorresse esta demonstração, tornaria claro como é incompreensível a forma de um espírito estar presente no espaço. </P>
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<H4>Consideraçes finais </H4>

<P>As doutrinas de Crusius e Knutzen, por exemplo, influenciaram Kant diretamente. A obra de Knutzen constitui o ponto de partida para a psicologia racional kantiana em 1747. Em sua primeira obra, Kant defende o comércio psicofísico a partir de uma teoria monadolgica da matéria. Porém a base terica de Knutzen, aquela que afirma uma origem comum para o movimento e a representação, é algo descartado por Kant. Crusius influencia-o, porque foi o primeiro filsofo alemão a tentar explicar &quot;como&quot; ocorre o comércio psicofísico, afirmando que embora as substâncias sejam diferentes, pode-se atribuí-las o mesmo modo de ação externa. Baumgarten consta neste trabalho por ser ele o autor do tratado de metafísica, livro que Kant empregava em suas aulas. Citou-se Mendelssohn pelo fato de que suas doutrinas são as mais aceitas na época dos Träume. Esse também foi citado, porque Kant escreve-lhe uma carta contando quais foram seus objetivos ao redigir os Träume. Por fim, mencionou-se Euler. Ele escreve as Cartas a uma Princesa Alemã em 1768, tendo esta obra grande semelhança com os Träume, o que sugere haver certa influência de Kant sobre o mesmo. Quanto aos textos de Kant podemos afirmar que no desenvolvimento da psicologia racional kantiana é possível diferenciar três períodos. O primeiro período encontra-se em 1747 e 1755. Nos Pensamentos Sobre a Verdadeira Estimação das Forças Vivas, escrito de 1747, Kant explica como ocorre a relação entre a alma e o corpo, sustentando a tese de que a &quot;vis activam&quot; a possibilita. Em 1755, na Histria Geral e Teoria do Céu, Kant aborda o problema do comércio psicofísico sob uma forma diferente do escrito de 1747. Em 1747, ele tenta demonstrar a tese do comércio psicofísico. Na Histria Geral e Teoria do Céu, ele preocupa-se em evidenciar pela experiência que a alma e o corpo se encontram em ação recíproca real. O segundo período compreende os escritos a partir de 1755 até 1762. Pode-se considerá-lo como uma etapa de transição no pensamento kantiano, porque nas obras desta época há retificaçes em relação à teoria do comércio psicofísico. Na Nova Dilucidatio, Kant desenvolve a tese de que a possibilidade de uma ação recíproca entre as substâncias deriva de um princípio comum especial, que é Deus. Na Monadologia Física, pela primeira vez, ele define no que consiste o estado externo das mnadas, que é a impenetrabilidade. Com esta consideração há uma exigência, que é a existência da alma separada do corpo. O terceiro período começa a partir de 1764. Nele ocorre a dissolução da teoria do comércio psicofísico de 1747. Kant reconhece a impossibilidade de demonstrar a tese relação entre a alma e o corpo. Ele declara que não pode conciliar a tese da imaterialidade com a do comércio psicofísico. Nas </P>

<P>Investigaçes Sobre a Evidência dos Princípios da Teologia Natural e da Moral, Kant continua com a teoria da matéria vista na Monadologia Física, aceita a caracterização da alma como substância simples derivada da unidade da apercepção e critica as provas dos racionalistas sobre a imaterialidade da alma. Nos Träume Kant não apresenta nenhuma tese nova frente à questão do comércio psicofísico. Tudo o que ele expe aqui tem como fundamento os seus trabalhos anteriores. A dissolução da psicologia racional vista nos Träume vem preparada ao longo do desenvolvimento do pensamento kantiano. Desde 1747 a 1766, embora havendo algumas modificaçes no sentido de Kant corrigir e aprofundar determinados aspectos de sua tese sobre o comércio psicofísico, o pensamento kantiano encontra-se em continuidade. Tem-se que interpretar tal desenvolvimento, tomando como base os problemas tratados por Kant, suas soluçes, e estas, por sua vez, ocasionando novas perguntas e, assim, sucessivamente. A evolução do pensamento kantiano é caracterizada pela paulatina clarificação dos problemas. Já em seu primeiro trabalho no ano de 1747, Kant se interessava pelo problema do comércio psicofísico, tentando solucioná-lo. Este, em realidade, implicava duas questes: a demonstração de sua realidade e a explicação de sua possibilidade. Em 1747, ambos formavam um ncleo comum. A não explicação da possibilidade do comércio psicofísico ocasionaria a sua indemonstrabilidade. Kant encontrava dificuldades frente a esta problemática. Era difícil tentar explicar como substâncias tão heterogêneas poderiam relacionar-se entre si. Sua resposta sobre o que possibilitava isto, a &quot;vis activan&quot;, não satisfazia. No escrito de 1756, ele afirma que a força que faz com que um elemento esteja em lugar chama-se impenetrabilidade. Porém, isto no lugar de solucionar o problema, acarretou mais dificuldades, porque Kant acreditava no caráter imaterial da alma. Em 1764, ele afirma, então, a incompreensibilidade de um espírito estar no espaço. Nos Träume, ele mantém a concepção monadolgica da matéria, afirma a incompreensibilidade da presença de um espírito no espaço como, também, a indemonstrabilidade do comércio psicofísico. Em suma, nos Träume (1766), Kant não coloca nenhuma tese nova sobre o problema da relação entre a alma e o corpo. O que ele faz é alcançar a clarificação sobre este problema o qual já vem sendo esboçado desde seu primeiro escrito em 1747. </P>
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<H4>Bibliografia </H4>

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