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<dc:format>The Strength of Words in the Film “Il Postino” </dc:format>

<dc:creator>A Study On the Cognitive Metaphor <rdf:Seq>(UNIP, Brasil) <rdf:li xml:lang="x-default">
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<dc:title>Mario, embora inconformado, não tem a garra necessária para mudar de vida. O destino, no entanto, encarrega-se de mudar a vida daquele homem. Mario assiste a um vídeo sobre a vida do poeta e descobre que ele ficará na ilha. Candidata-se, então, a vaga de carteiro exclusivo, tornando-se o responsável por entregar as correspondências de Neruda. O poeta, durante o exílio, mantém contato apenas com a esposa Matilde e com o carteiro, que deve entregar-lhe as cartas, quase todas de mulheres, sem incomodá-lo. Mario nutre uma curiosidade por aquele homem que seduz as mulheres com doces palavras de amor, tornando-se muito querido por elas. <rdf:Alt>Ele a acaricia, a beija e a umedece; E escorre em seu peito Repetindo seu prprio nome. &amp;

Mario sente-se estranho ao ouvir a poesia, como se estivesse enjoado. As palavras, assim como o mar, movimentavam-se: essa foi a observação do carteiro. Neruda explica sobre a importância do ritmo na construção do texto poético, pois ele cria a sensação de que as palavras balançam como as águas do mar, num vai e vem contínuo. 

Eu me senti como um barco balançando na volta dessas palavras. 

As associaçes entre palavra e mar não estão necessariamente nos domínios, mas na experiência social dos sujeitos dentro de um contexto sociodiscursivo. A metáfora, nessa visão, funciona por meio da dinamização de macroestruturas conceptuais, organizadoras de formas prototípicas de conhecimento do mundo, as quais são convencionais no sentido de envolverem postulados sociais. A escolha das palavras no poema e o seu ritmo cadenciado sugerem o movimento das águas do mar para aqueles que conhecem o mar, que vivenciam essa realidade. As metáforas, portanto, apresentam uma feição cultural e emergem em uma dada sociedade, pois destacam as experiências coletivas tanto de cunho físico quanto de cunho cultural. <rdf:li>BACCEGA, Maria Aparecida. Comunicação e linguagem: discursos e ciência. São Paulo: Moderna, 1998. &amp;

BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociolgico na ciência da linguagem. 2. ed. Trad. Michel Lahud et al. São Paulo: Hucitec: Annablume, 1981. 

CORACINI, Maria José. Um fazer persuasivo: o discurso subjetivo da Ciência. São Paulo: Pontes: EDUC, 1991. 

&amp;DERRIDA, Jacques. Gramatologia. 2. ed. Trad. Miriam Chnaiderman e Renato Janine Ribeiro. São Paulo: Perspectiva, 2004. 

FAIRCLOUGH, Norman. Discurso e mudança social. Trad. Izabel Magalhães. Brasília: UNB, 2001. 

LAKOFF, Geroge. A figure of thought. In: LAKOFF, George. Metaphor and symbolic activity.  Berkeley: University of California, 1986. 

LAKOFF, George &amp;&amp; JOHNSON, Mark. Metáforas da vida cotidiana. Trad. Grupo de estudos da indeterminação e da metáfora (GEIM). São Paulo: Educ: Mercado de letras, 2002. 

VICO, Giambattista. A ciência nova. Trad. Marco Lucchesi. Rio de Janeiro: Record, 1999. 


Bibliografia 

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</dc:title>

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CIENCIA Y CINE </Figure>

<Part>
<H4>A FORÇA DA PALAVRA NO FILME “O CARTEIRO E O POETA” </H4>

<Sect>
<H4>Um estudo da metáfora cognitiva </H4>

<Sect>
<H4>The Strength of Words in the Film “Il Postino” </H4>

<P>A Study On the Cognitive Metaphor </P>

<Sect>
<H5>ADILSON SILVA OLIVEIRA </H5>

<P>(UNIP, Brasil) </P>
</Sect>
</Sect>
</Sect>
</Part>

<Part>
<H4>Introdução </H4>

<P>O filme “O Carteiro e o Poeta”, baseado na obra “Ardiente paciencia”, de Antonio Skármeta, chegou às telas em 1994, sob a direção atenta de Michael Radford. Anna Pavignano, Furio Scarpelli, Giacomo Scarpelli, Massimo Troisi e </P>

<L>
<LI>
<Lbl>o </Lbl>

<LBody>prprio cineasta, roteiristas do filme, lançam um olhar sobre a amizade entre </LBody>
</LI>

<LI>
<Lbl>o </Lbl>

<LBody>poeta chileno Pablo Neruda (Phillippe Noiret) e o pescador Mario Ruoppolo (Massimo Troisi). Este é um carteiro semianalfabeto, filho de um pescador, que sonha em fugir da triste profissão do pai, pois se considera inapto para o destino traçado a todos os homens daquela remota ilha da Sicília. Aquele é o grande poeta Dom Pablo, autoexilado na ilha, aps desentendimentos com a política do seu país. </LBody>
</LI>
</L>

<P>Mario, embora inconformado, não tem a garra necessária para mudar de vida. O destino, no entanto, encarrega-se de mudar a vida daquele homem. Mario assiste a um vídeo sobre a vida do poeta e descobre que ele ficará na ilha. Candidata-se, então, a vaga de carteiro exclusivo, tornando-se o responsável por entregar as correspondências de Neruda. O poeta, durante o exílio, mantém contato apenas com a esposa Matilde e com o carteiro, que deve entregar-lhe as cartas, quase todas de mulheres, sem incomodá-lo. Mario nutre uma curiosidade por aquele homem que seduz as mulheres com doces palavras de amor, tornando-se muito querido por elas. </P>

<P>O contato com o poeta modifica a vida do carteiro, revelando-lhe um novo mundo interno e externo, até então desconhecido: o mundo da linguagem poética e de suas metáforas. Mario, ao descobrir a força expressiva das palavras, conscientiza-se da vida, do seu espaço e da necessidade de transformação da realidade social do povo da ilha. </P>

<P>Se antes, o silêncio e certa letargia eram as companheiras do filho do pescador, a inquietação e a necessidade do dizer passam a fazer parte da vida dele a partir do contato que Mario trava com Dom Pablo – conhecido sob a alcunha de poeta das mulheres, em função da forma como ele é adorado por elas. Mario deseja, também, ser alvo do desejo feminino e, por isso, pede ajuda ao poeta, pois, diante da garçonete Beatrice, sua amada, não consegue balbuciar uma nica palavra. Solicita, então, que Neruda escreva uma poesia para Beatrice. O poeta recusa tal empreitada, dizendo que Dante Alighieri há havia cantado seus amores por Beatrice. Tanto a recusa quanto a intertextualidade não são entendidas pelo carteiro. </P>

<P>Mario devora as poesias de Neruda, buscando os sentidos das palavras. Conscientiza-se de que elas querem dizer muito mais do que dizem. “Quando você explica” – assente o poeta, “a poesia se torna banal. Melhor do que qualquer explicação é a experiência de sentimentos que a poesia pode revelar a uma alma suficientemente aberta para entendê-la”. Mario aprende a sentir as palavras, conquistando não so amor da mulher amada, mas também a amizade terna do poeta. A consciência, no entanto, faz com que o humilde carteiro perceba as desigualdades sociais do seu povo e se envolva com as causas comunistas, aproximando-se dos ideais políticos de Neruda. </P>

<P>“O carteiro e o poeta”, filme italiano, concorreu a cinco indicaçes ao Oscar nas categorias de filme, diretor, roteiro, trilha sonora e ator. Massimo Troisi não levou a estatueta, que, no seu caso, viria pstuma, posto que dera sua vida pelo filme, por acreditar no projeto e na força da poesia de Pablo Neruda. Mesmo sabendo da grave doença que o acometia, resolveu seguir com as filmagens. Morreu horas aps o término do filme. </P>

<Sect>
<H4>1. Metáfora cognitiva </H4>

<P>O filme “O carteiro e o poeta” não é apenas um filme sobre a amizade; é, sobremaneira, um filme sobre a poesia. Mario Ruoppolo, por intermédio do poeta Pablo Neruda, aprende a ver as coisas à sua volta à medida que descobre os sentidos por trás das palavras. Assim, ele (re)significa não sa sua vida, mas também a vida das pessoas da ilha, pois adquire um novo olhar para o mar, com seus sons e segredos, e, principalmente, para as injustiças políticas e religiosas em voga. </P>

<P>Em uma de suas interaçes com o poeta, Mario quer saber o significado da palavra “metáfora”. A resposta de Neruda é imprecisa, pois ele prprio não havia pensado sobre isso. Diz que metáfora é uma espécie de comparação, acrescentando, depois, que ela ultrapassa a linguagem poética. A primeira fala condiciona essa figura à visão aristotélica, na qual a metáfora é um ornamento do discurso; na segunda fala, por sua vez, o poeta rompe com essa visão reducionista, explicitando que a linguagem metafrica não está apenas no discurso poético, mas na prpria vida. Essa visão é concernente com o posicionamento terico dos cognitivistas. </P>

<P>Lakoff&amp; Johnson (2002), tericos cognitivistas, rompem com a visão tradicional da metáfora, na qual ela é considerada uma figura de linguagem sem valor cognitivo. Esse conceito tradicional, com origem na visão aristotélica, constitui-se um recurso linguístico com motivação fundamentalmente poética ou retrica. Nas décadas de 1970 e, principalmente, a partir da década de 1980, no entanto, a metáfora tem sido objeto de reflexão em diversas áreas das ciências humanas. No pensamento contemporâneo, deixa a periferia ornamental do discurso para ocupar um lugar de destaque no processo de entendimento da prpria compreensão humana. Constitui um erro pensar que o uso da língua é literal em seu cerne e metafrico em seus ornamentos, visto que a metáfora rege tanto a aquisição quanto o desenvolvimento da linguagem.  </P>

<P>Dentre os tericos que vêm contribuindo para esse questionamento, Lakoff&amp; Johnson (2002) redefiniram a metáfora a partir de uma abordagem sistemática e estruturada. Situam-na no nível conceptual, deixando de ser uma figura de linguagem para assumir o papel de uma figura de pensamento, um processo por meio do qual experiências são elaboradas cognitivamente, com base em outras já existentes no nível conceptual. Há, assim, uma superposição de um conceito já incorporado e determinado linguisticamente a outra experiência a ser mapeada pela linguagem. Para Bakhtin (1981), a significação da palavra não está apenas na prpria palavra, ou na alma do falante, ou ainda na alma do interlocutor. Ela é o efeito da interação entre os sujeitos no processo comunicativo. Somente a “corrente da comunicação verbal fornece à palavra a luz da sua significação.” (Bakhtin, 1981: 132).  </P>

<P>A linguagem metafrica sugere que uma determinada significação objetiva foi compreendida pelos interlocutores discursivos, tanto no âmbito imediato como no âmbito social mais amplo de um dado grupo social. Ademais, cabe à apreciação o papel criativo nas mudanças significativas da linguagem, ou, mais especificamente, da palavra. </P>

<P>A mudança de significação é sempre, no final das contas, uma reavaliação: o deslocamento de uma palavra determinada de um contexto apreciativo para outro. A palavra ou é elevada a um nível superior, ou abaixada a um inferior. Isolar a significação da apreciação inevitavelmente destitui a primeira de seu lugar na evolução social viva (onde ela está sempre entrelaçada com a apreciação) e torna-a um objeto ontolgico, transforma-a num ser ideal, divorciado da evolução histrica. (Bakhtin, 1981: 135) </P>

<P>No âmbito cognitivo, os postulados acerca da metáfora representam uma ruptura no paradigma do estudo da linguagem de enfoque objetivista. Tal paradigma abrange todas as correntes da filosofia ocidental e condiciona a linguagem a um mero espelho da realidade objetiva. O “mito do objetivismo”, de acordo com Lakoff&amp; Johnson (2002: 295-296), consiste na ideia de que os objetos do mundo podem ser depreendidos por meio de categorias e conceitos, os quais, por sua vez, correspondem às propriedades que esses objetos têm em si mesmos. A compreensão da realidade deve ser objetiva e universalmente válida, caracterizando-se como correta, definitiva e geral. As palavras, no enfoque objetivista, têm significados fixos, claros e precisos e correspondem à realidade. A metáfora e os outros tipos de linguagem poética, imaginativa, retrica ou figurada podem ser evitados ao se falar objetivamente, visto que seus significados não são claros, nem precisos e não correspondem à realidade. Coracini (1991: 135) salienta, em desacordo com essa ideia, o caráter polissêmico e ambíguo das palavras, as quais adquirem sentido no âmbito contextual. O posicionamento da autora é consoante à concepção de linguagem adotada pela linguística cognitivista.  </P>

<P>Lakoff&amp; Johnson (2002), ao romperem com o paradigma objetivista, rompem também com as dicotomias objetivistas, tais como, por exemplo: literal/metafrico; linguagem cotidiana/linguagem literária; razão/emoção; objetivismo/subjetivismo. A ruptura das dicotomias dá-se em função da descoberta de um imenso sistema conceptual metafrico subjacente à linguagem cotidiana. A metáfora não está presente somente na linguagem literária, poética ou persuasiva e, sobremaneira, não representa um desvio da linguagem usual, já que todo discurso humano é conceptualmente metafrico. Essa ideia parte do pressuposto de que a mente humana é um repositrio de abstraçes e emoçes e a forma de visualizar essas experiências abstratas vem de outros domínios da experiência. Bakhtin (1981) aponta que a significação da atividade mental é recolocada no contexto de outros signos compreensíveis. O signo, assim, deve ser elucidado por meio de outros signos.  </P>

<P>Como já salientado, essa perspectiva rompe com a visão aristotélica, para a qual a metáfora se caracteriza como irrelevante para a significação e para as inferências e sua classificação se restringe à palavra, não ao pensamento. A linguagem metafrica, no âmbito clássico, não é parte da linguagem ordinária convencional, tanto que expresses metafricas convencionais na linguagem cotidiana são consideradas metáforas mortas, ou seja, expresses que deixaram de ter valor metafrico e passaram a ser consideradas literais. </P>

<P>Os autores cognitivistas rebatem essa concepção reducionista acerca da metáfora, inscrevendo-a como um processo inerente à linguagem humana. Dessa forma, a linguagem metafrica é configurada como a prpria concepção da realidade. </P>

<P>O início de uma acepção da metáfora no âmbito cognitivo, no entanto, não está circunscrito às décadas de 1970 e 1980. Vico (1999), ao lançar o livro “A ciência nova”, em 1725, aborda pela primeira vez a metáfora como uma operação de natureza cognitiva. Em contraponto à visão vigente da época sobre a linguagem metafrica, a qual era associada à mentalidade pré-científica ou anticientífica, o autor procura mostrar que a linguagem era necessária para que os antigos habitantes explicassem e compreendessem as interaçes e as ocorrências cotidianas. A linguagem fornecia às pessoas de uma dada cultura uma realidade comum, um solo comum de verdade.</P>

<P>  Para esse autor, a linguagem foi concebida como poética, já que as primeiras naçes foram de poetas, que, movidos de sentido e paixão, “deram aos corpos o ser das substâncias animadas (...) e assim fizeram as fábulas; de modo que cada metáfora vem a ser uma pequena fábula.” (Vico, 1999: 169). O homem interage com o mundo por meio de uma maneira sofisticada de conhecer, codificar e dar conta da experiência. Assim, a metáfora não é um mero bordado da realidade, mas uma forma de representação dessa realidade, capaz de operacionalizar a sua complexa elaboração nos moldes da consciência; e a palavra, o elemento legitimador da metáfora, cria a ilusão de que o objeto, o fato e a experiência podem ser apreendidos pelo homem. Conforme Bakhtin (1981: 41), as “palavras são tecidas a partir de uma multidão de fios ideolgicos e servem de trama a todas as relaçes sociais em todos os domínios.” Nesse sentido, a palavra penetra em todas as relaçes entre indivíduos, quer nos encontros fortuitos da vida cotidiana, quer nas relaçes de caráter político e ideolgico. De forma análoga, Baccega (1998) afirma que o significado de uma palavra não está mais no sistema da língua, entendida enquanto estrutura, mas na sociedade que a criou, que reelaborou seu significado e que a utilizou numa determinada formação ideolgica. Esta, como prática, se apresenta como linguagem em ação, passível de (re)significaçes, de rupturas, de produção de sentidos. As práticas discursivas correspondem aos momentos ativos do uso da linguagem. </P>

<P>Para Vico (1999: 169), todas as metáforas, criadas com base nas semelhanças tiradas dos corpos, significam trabalhos de mentes abstratas que devem ser as dos tempos nos quais se começaram a burilar as filosofias. Dessa forma, não havia um olhar objetivo sobre as coisas, uma vez que o homem interagia com o mundo por meio de uma sabedoria poética. A metáfora consistia na representação e na legitimação da realidade. </P>

<P>Derrida (2004) partilha do mesmo pressuposto de Vico (1999) à medida que caracteriza a língua em sua origem como metafrica. Para Derrida (2004: 330), “a metáfora é o traço que reporta a língua à sua origem”, surgindo da necessidade e da paixão humana de comunicar-se e de nomear os seres à sua volta. Nesse sentido, a metáfora passa a ser uma representação psicolgica inerente ao homem e caracteriza-se como uma forma de ação sobre o mundo. </P>

<P>A metáfora, no âmbito cognitivo, é concebida como conceptual e se contrape a visão tradicional à medida que não se condiciona somente à palavra, mas também ao enunciado e ao seu contexto sociocultural, ou como determina Fairclough (2001: 241), a metáfora é a prpria construção da realidade posto que representa uma escolha significativa em detrimento de outras possíveis escolhas. Assim sendo, diferentes expresses metafricas não representam metáforas distintas, mas metáforas conceptuais ordinárias. A linguagem metafrica é um reflexo do fato de que o prprio pensamento se estrutura e se concebe metaforicamente, estabelecendo mapeamento entre domínios experienciais e semânticos. O mapeamento, por conseguinte, é uma forma de conceptualizar sobre a confluência de experiências. Por fim, a linguagem metafrica não representa um desvio em relação à linguagem literal, visto que o uso de expresses metafricas apresenta-se normatizada no sistema linguístico ordinário e a compreensão dessas expresses implica partilhamento sociocultural dos interlocutores no processo interacional. </P>
</Sect>

<Sect>
<H4>2. Metáforas no filme “O carteiro e o poeta” </H4>

<P>O filme “O carteiro e o poeta” pode ser dividido em duas partes: a primeira compreende a vida de Mario Ruoppolo antes de seu contato com Pablo Neruda; a segunda, a partir do primeiro contato com o poeta e com um universo de linguagem até então desconhecido pelo carteiro. Mario viveu cercado por pescadores em uma pequena e humilde ilha da Sicília, tendo contato apenas com as pessoas daquele lugar, principalmente, com o pai, um homem de poucas palavras e de silêncios angustiantes. </P>

<P>Adulto e sem perspectivas profissionais, Mario desejou a América e todas as possibilidades que a nova terra lhe traria. Afinal, já estava comprovado que não tinha habilidades para a pesca, pois o movimento dos barcos o deixava enjoado. O pai, incessantemente, cobrava do filho que arrumasse um emprego e deixasse de viver de sonhos. </P>

<P>A vida, sempre inspita, oferece um presente para o filho do pescador. Ele, diante de um anncio na agência de correios, candidata-se à função de carteiro exclusivo do poeta Neruda, o famoso e adorado poeta das mulheres, cercado por efusivas manifestaçes de apreço e admiração. Mario teria a chance de conhecer de perto o poeta chileno, autoexilado na Itália por tempo indeterminado. </P>

<P>O contato com Neruda modifica para sempre a vida do carteiro. Diariamente, enquanto entrega as correspondências, observa o universo do poeta, sentindo o desejo de também ser poeta e ter o domínio das palavras para poder conquistar o amor de Beatrice, declamando-lhe poemas de amor. </P>

<P>A interação com o poeta modifica a forma como Mario enxerga as pessoas, as coisas e os valores de sua ilha. Ele, consciente das palavras, começa a questionar a religião e a política local, assumindo uma postura comunista. Essa nova forma de ver a sua ilha ao mesmo tempo em que afasta Mario dos “barcos tristes” dos pescadores, aproxima-o da poesia e da vontade de lutar pelos interesses dos oprimidos. </P>

<P>“O carteiro e o poeta” pode ser analisado sob diversos prismas e com base em diferenciadas teorias. O filme possibilita uma verdadeira reflexão sobre a linguagem não sporque tem como papel de destaque a figura do famoso poeta Pablo Neruda, mas também porque destaca a interação desse homem das letras com um carteiro semianalfabeto. A curiosidade de Mario revela um homem que não tem consciência das palavras, mas que tem a poesia na alma. Com base nessa reflexão, esse texto respalda-se na teoria da metáfora cognitiva, para a qual a significação da palavra é construída na interação entre os sujeitos no processo comunicativo. Não é apenas o carteiro que tem o seu destino modificado; o poeta também se transforma nessa interação. Ele, diante das inquietaçes de Mario, pensa sobre o seu prprio fazer poético, tendo de falar sobre metáforas, imagens e ritmo da linguagem. </P>

<P>O poeta conceitua “metáfora” como uma espécie de comparação e depois acrescenta que a metáfora ultrapassa a poesia, estando presente em todas as coisas do mundo. Dessa forma, Neruda aproxima-se da visão defendida por Vico (1999) e pelos estudiosos da linguística cognitiva, para os quais a metáfora está no cerne da prpria linguagem. </P>

<P>A linguagem cotidiana, por exemplo, é essencialmente metafrica. Antes mesmo da chegada de Neruda à ilha, a linguagem metafrica, mesmo que inconscientemente, é usada nas interaçes do dia a dia. Giorgio, o carteiro-chefe, diz para Mario, no momento de sua contratação como carteiro: </P>

<P>“Pedalar com essa bicicleta é como carregar um elefante nas costas.” “O salário é uma ninharia.” </P>

<P>A relação “pedalar” e “carregar um elefante nas costas”, num primeiro momento, não apresenta similaridades, já que implica campos de conhecimentos distintos. A construção das similaridades está intimamente relacionada aos conhecimentos partilhados pelos sujeitos. Mario associa o peso do elefante à quantidade excessiva de cartas que será entregue ao poeta, não tendo, para tal empreitada, um bom salário, conforme a segunda frase. </P>

<P>As similaridades entre domínios experienciais distintos, portanto, estão diretamente relacionadas à concepção sociocultural de uma dada comunidade linguística. Nessa perspectiva, a metáfora caracteriza-se pela relação de coerência entre conceitos metafricos e valores socioculturais. Caracteriza-se, ainda, como uma correspondência ontolgica e epistêmica. A primeira característica apontada estabelece uma relação entre língua e contexto, na medida em que os meios socioculturais e linguísticos formam um sistema coerente. A segunda estabelece-se por meio de um mapeamento, isto é, a superposição de um domínio conceptual sobre um outro. Essa superposição se constitui pela relação entre um domínio de origem (source domain) a um domínio alvo (target domain). (Lakoff, 1986: 216). </P>

<P>Em outro momento do filme, Mario, já fascinado pelas poesias do livro Odes elementares, de Neruda, quer prolongar a conversa com o poeta, pois deseja aprender a fazer poesia. </P>

<P>“Você fica aí parado como um poste.” “Cravado feito um arpão?” “Não, quieto como uma torre de um tabuleiro de xadrez.” “Mais tranquilo que um gato de porcelana?” </P>

<P>O diálogo entre o poeta e o carteiro é construído com o uso de versos retirados do livro citado. As metáforas cabem à situação comunicativa estabelecida entre ambos, adquirindo um novo contexto. As expresses “parado como um poste”, “cravado feito um arpão”, “quieto como uma torre de um tabuleiro de xadrez” e “mais tranquilo que um gato de porcelana” remetem ao carteiro imvel, buscando a adesão do poeta. Portanto, uma pluralidade de expresses metafricas, como as citadas, por exemplo, pode reproduzir uma nica metáfora conceptual. Essa assimetria é possível pela natureza, já que o sistema conceptual humano é caracterizado como pluralístico, com um grande nmero de estruturaçes de conceitos abstratos mutuamente inconsistentes. A metáfora baseia-se, fundamentalmente, em correspondências entre experiências imediatas, nomeadamente no domínio físico, de interação entre o corpo e a realidade, partilhadas pela comunidade linguística e enraizadas em modelos culturais. </P>

<P>O poeta Neruda, diante do mar, declama uma poesia para Mario: </P>

<P>Aqui na ilha há tanto mar, O mar e mais o mar. Ele transborda de tempo em tempo. </P>

<P>Diz que sim, depois que não, Diz sim e de novo não. </P>

<P>No azul, na espuma, em galope Ele diz não e novamente sim. </P>

<P>Não fica tranquilo, não consegue parar. Meu nome é mar - ele repete Batendo numa pedra, mas sem convencê-la. </P>

<P>Depois com as sete línguas verdes De sete tigres verdes, de sete cães verdes, De sete mares verdes </P>

<P>Ele a acaricia, a beija e a umedece; E escorre em seu peito Repetindo seu prprio nome. </P>

<P>Mario sente-se estranho ao ouvir a poesia, como se estivesse enjoado. As palavras, assim como o mar, movimentavam-se: essa foi a observação do carteiro. Neruda explica sobre a importância do ritmo na construção do texto poético, pois ele cria a sensação de que as palavras balançam como as águas do mar, num vai e vem contínuo. </P>

<P>Eu me senti como um barco balançando na volta dessas palavras. </P>

<P>As associaçes entre palavra e mar não estão necessariamente nos domínios, mas na experiência social dos sujeitos dentro de um contexto sociodiscursivo. A metáfora, nessa visão, funciona por meio da dinamização de macroestruturas conceptuais, organizadoras de formas prototípicas de conhecimento do mundo, as quais são convencionais no sentido de envolverem postulados sociais. A escolha das palavras no poema e o seu ritmo cadenciado sugerem o movimento das águas do mar para aqueles que conhecem o mar, que vivenciam essa realidade. As metáforas, portanto, apresentam uma feição cultural e emergem em uma dada sociedade, pois destacam as experiências coletivas tanto de cunho físico quanto de cunho cultural. </P>

<P>Mario conscientiza-se do poder da palavra e encanta a bela Beatrice Russo, declamando-lhe poemas de amor. As palavras incendeiam o coração da moça pura e enfurecem a sua tia e cuidadora. Dona Rosa, preocupada com a sobrinha, procura Neruda, pedindo-lhe que não alimente o pobre carteiro com palavras cheias de feitiço. </P>

<P>Ele a deixou tão quente quanto um forno com suas metáforas. Sua boca está cheia de feitiços. </P>

<P>As metáforas estão tão enraizadas no modo de pensar de uma comunidade linguística que as expresses que as traduzem não são reconhecidas como metafricas. Dona Rosa, na sua inflamada reclamação das investidas de Mario em Beatrice, utiliza-se, inconscientemente, de uma linguagem repleta de metáforas. </P>
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<H4>Consideraçes finais </H4>

<P>Conclui-se, com base nos exemplos retirados do filme “O carteiro e o poeta”, que a metáfora não é uma mera extensão ou transferência semântica de uma categoria isolada para outra categoria de um domínio diferente. Envolve uma analogia sistemática e coerente entre a estrutura interna de dois domínios da experiência e, consequentemente, todo o conhecimento relevante associado a outros conceitos e domínios. Compreender a linguagem metafrica equivale a compreender o prprio modo de pensar e agir inerente ao ser humano. Nesse sentido, a metáfora está vinculada não sà linguagem, mas também à prpria inserção do homem no mundo. </P>
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<H4>Bibliografia </H4>

<P>BACCEGA, Maria Aparecida. Comunicação e linguagem: discursos e ciência. São Paulo: Moderna, 1998. </P>

<P>BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociolgico na ciência da linguagem. 2. ed. Trad. Michel Lahud et al. São Paulo: Hucitec: Annablume, 1981. </P>

<P>CORACINI, Maria José. Um fazer persuasivo: o discurso subjetivo da Ciência. São Paulo: Pontes: EDUC, 1991. </P>

<P>DERRIDA, Jacques. Gramatologia. 2. ed. Trad. Miriam Chnaiderman e Renato Janine Ribeiro. São Paulo: Perspectiva, 2004. </P>

<P>FAIRCLOUGH, Norman. Discurso e mudança social. Trad. Izabel Magalhães. Brasília: UNB, 2001. </P>

<P>LAKOFF, Geroge. A figure of thought. In: LAKOFF, George. Metaphor and symbolic activity.  Berkeley: University of California, 1986. </P>

<P>LAKOFF, George&amp; JOHNSON, Mark. Metáforas da vida cotidiana. Trad. Grupo de estudos da indeterminação e da metáfora (GEIM). São Paulo: Educ: Mercado de letras, 2002.  </P>

<P>VICO, Giambattista. A ciência nova. Trad. Marco Lucchesi. Rio de Janeiro: Record, 1999. </P>
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