PROMETEICA - Revista de Filosofia y Ciencias. 2026, v. 33

Artículos       

https://doi.org/10.34024/prometeica.2026.33.22128   

A filosofia da diferença de Deleuze nas publicações da educação e do ensino de ciências

Deleuze's philosophy of difference in education and science education publications

La filosofía de la diferencia de Deleuze en las publicaciones de educación y enseñanza de las ciencias

Andressa Basile Rezende

(Universidade Federal de São Paulo, Brasil)
andressa.rezende@unifesp.br

José Alves da Silva

(Universidade Federal de São Paulo, Brasil)
jose.alves@unifesp.br

Recibido: 31/03/2026

Aprobado: 15/05/2026

RESUMO

Com o objetivo de contribuir para a valorização da diversidade a partir da compreensão do conceito de diferença em processos educativos, investigamos a influência da filosofia da diferença proposta por Gilles Deleuze em publicações das áreas de educação e de ensino de ciências. Para tanto, buscamos responder à seguinte pergunta de investigação: como as contribuições de Gilles Deleuze sobre o conceito de diferença aparecem nas publicações da área de educação e ensino de ciências no Brasil? Para responder à nossa pergunta, fizemos uma pesquisa bibliográfica nos principais portais da área. Nossos resultados revelam que há densidade teórica nas discussões educacionais mais gerais sobre Deleuze, em especial na busca pela quebra de padrões e por mais diversidade nas formas de pesquisar e de ensinar. Porém, no campo específico do ensino de ciências, a maioria das publicações discute de forma secundária as diferenças, apesar de elas serem fundamentais no corpo teóricos de várias ciências, especialmente no da física. A apropriação desse referencial pode trazer novas formas de valorizar a diversidade na educação e no ensino. 

Palavras-chave: filosofia da diferença. ensino de ciências. Gilles Deleuze. diferenças.

ABSTRACT

With the aim of contributing to the appreciation of diversity through the understanding of the concept of difference in educational processes, we investigated the influence of the philosophy of difference proposed by Gilles Deleuze in publications within the fields of education and science teaching. To this end, we sought to answer the following research question: how do Gilles Deleuze's contributions regarding the concept of difference appear in publications in the field of education and science teaching in Brazil? To answer our question, we conducted a bibliographic review in the main portals of the field. Our results reveal a theoretical density in the broader educational discussions about Deleuze, particularly in the pursuit of breaking patterns and promoting greater diversity in research and teaching methods. However, in the specific field of science education, most publications discuss differences in a secondary manner, despite their fundamental role in the theoretical body of several sciences, especially physics. The appropriation of this theoretical framework can bring new ways of valuing diversity in education and teaching.

Keywords: philosophy of difference. science teaching. Gilles Deleuze. differences.

RESUMEN

Con el objetivo de contribuir a la valoración de la diversidad a partir de la comprensión del concepto de diferencia en los procesos educativos, investigamos la influencia de la filosofía de la diferencia propuesta por Gilles Deleuze en publicaciones de las áreas de educación y enseñanza de las ciencias. Para ello, buscamos responder a la siguiente pregunta de investigación: ¿cómo aparecen las contribuciones de Gilles Deleuze sobre el concepto de diferencia en las publicaciones del área de educación y enseñanza de las ciencias en Brasil? Para responder a nuestra pregunta, realizamos una investigación bibliográfica en los principales portales del área. Nuestros resultados revelan que existe densidad teórica en las discusiones educativas más generales sobre Deleuze, en especial en la búsqueda de la ruptura de patrones y de una mayor diversidad en las formas de investigar y de enseñar. Sin embargo, en el campo específico de la enseñanza de las ciencias, la mayoría de las publicaciones discuten las diferencias de forma secundaria, a pesar de que son fundamentales en el cuerpo teórico de varias ciencias, especialmente en el de la física. La apropiación de este marco de referencia puede aportar nuevas formas de valorar la diversidad en la educación y la enseñanza.

Palabras clave: filosofía de la diferencia. enseñanza de las ciencias. Gilles Deleuze. diferencias.

Contexto e pergunta de investigação

É crucial estudar as diferenças no ensino de ciências porque, praticamente, todos os fenômenos da natureza precisam ser explicados a partir delas. Na física, por exemplo, uma boa maneira de olharmos para a importância dessas diferenças advém de sua abordagem a partir da estética e da simetria.  A estética é apresentada, na filosofia da ciência, como uma consequência de uma escolha humana que precede e molda o conhecimento científico, não sendo, exatamente, um sinônimo de "beleza" (Pires, 2020). Trata-se, pois, de um "modo de ver" o mundo, a partir dos próprios sentidos humanos, valorizando critérios como simplicidade, harmonia e elegância para a observação da natureza, para a elaboração de explicações científicas e para a consolidação das teorias (Quadros, 1986). A simetria, por sua vez, é tratada como um elemento dentre essas escolhas estéticas, sendo uma variável estruturante e organizadora para a compreensão e a explicação da natureza (Pires, 2020).  No caso da Física, Menezes (2006) afirma que as simetrias aparecem muito associadas às propriedades relacionadas à invariância do espaço, tais como a homogeneidade (pontos do espaço, distantes de quaisquer influências externas, são absolutamente iguais sob qualquer ótica) e a isotropia (um ponto do espaço, distante de qualquer influência externa, não apresenta direção e sentido privilegiados). 

Estabelecidas a importância fundamental das simetrias nos fundamentos da física, a compreensão das suas quebras torna-se igualmente essencial. É assim que, quando há um agente externo a dois pontos do espaço (por exemplo, a criação de um sistema de referência), passa a haver diferenças entre eles (entre as coordenadas desses pontos, por exemplo), de modo que esses pontos não são mais homogêneos entre si porque há diferenças entre eles. Se houver um campo gravitacional atuando, passará a haver, neles, direções e sentidos privilegiados, havendo uma quebra da isotropia em relação ao espaço puro, tornando-os não equivalentes a outros pontos distantes da ação desse campo gravitacional (Menezes, 2006).

Na física, o espaço puro, isotrópico e homogêneo é uma idealização que fundamenta as leis newtonianas e os dois principais princípios de conservação: o da quantidade de movimento linear e o da conservação da quantidade de movimento angular. Nesses princípios, ainda que em um sistema fechado, a quantidade de movimento total se conserva, ainda que possa haver mudanças em parcelas dessa quantidade de movimento entre partes de um sistema ou entre dois ou mais sistemas diferentes. Essas mudanças sempre vão ocorrer em um corpo a partir das interações dele com um outro agente, seja este dentro do próprio sistema ou completamente externo a ele. A análise das interações é fundamental na compreensão de todo fenômeno físico, e essas interações costumam quebrar homogeneidades e simetrias, gerando diferenças. Isso significa que, para uma compreensão completa do Universo, as diferenças são fundamentais, de modo que é preciso reconhecer a sua importância e o seu papel fundamental em todo e qualquer fenômeno físico estudado (Rezende 2024).

É neste contexto que se insere este artigo, o qual tem como objetivo principal estimular a diversidade em processos educativos por meio do aumento das pesquisas sobre a importância das diferenças no processo de ensino-aprendizagem em ciências, retirando o conceito de diferença do lugar estigmatizado de "falha" ou "desvio", e elevando-o à categoria de motor fundamental da natureza, do pensamento e do ensino de ciências.  Para tanto, escolhemos como referencial teórico os trabalhos de Gilles Deleuze (1925-1995) sobre a filosofia da diferença.

Para dar conta deste objetivo, buscamos responder à seguinte pergunta de investigação: como as contribuições de Gilles Deleuze sobre a filosofia da diferença aparecem nas publicações da área de ensino de Ciências no Brasil?

Porém, antes de buscar respondê-la, consideramos importante descrever a nossa compreensão acerca do conceito de diferença proposto por Deleuze. 

Um pouco da filosofia de diferença de Deleuze

Deleuze escreveu as obras Diferença e Repetição (1968) e Lógica do Sentido (1969), que solidificaram suas ideias sobre a diferença como um elemento primordial da realidade (Alliez, 1998). Nessas obras, Deleuze propôs uma filosofia que não reduzisse a diferença a uma mera oposição ou negação de uma identidade primitiva, mas como constituinte dessa própria identidade. Ou seja, as diferenças não são algo que se acrescenta a uma identidade pré-existente, mas uma parte importante da própria identidade.  Dessa maneira, a diferença poderia ser vista como uma variável positiva e potente na forma humana de estruturar o pensamento acerca dos conceitos mais fundamentais da ciência, consolidando-a como parte indissociável e fundamental da realidade. Com isso, Deleuze buscou retirar as diferenças do lugar de “maldição” (Deleuze, 2018 p.54) onde, muitas vezes, é colocada.

Para estudar a relação entre diferença e identidade, Deleuze cunhou o conceito de representação, compreendida como um processo que visa salvar a diferença do lugar de maldição. Para isso, ele sugere, a partir de um conceito primitivo (a identidade), que sejam buscadas  diferenças gradativas com outros conceitos, de tal modo que, em dado momento, seja possível associar, também, as semelhanças entre eles. Por exemplo, a palavra ‘animal’, por si só, já delimita uma ideia geral no pensamento de uma pessoa sobre um conceito.  Para que as diferenças sejam definidas no interior deste conceito, no entanto, precisam ser consideradas, por exemplo, duas espécies diferentes. Nesse processo de diferenciação, há gradações para que sejam estabelecidas diferenças entre duas ou mais espécies, sempre considerando que também haverá semelhanças entre elas. Assim, não há diferenças entre conceitos sem que exista, também alguma semelhança possível entre uma identidade e outra.

Deleuze utiliza sempre uma estruturação de pensamento para analisar os conceitos:  a diferença a partir do igual e a diferença a partir do semelhante. A modelagem clássica voltada ao racionalismo enxerga a diferença apenas como uma dessemelhança do igual. Isso é prejudicial, segundo este autor, porque induz as pessoas a pensarem na existência de conceitos universais que escondem as diferenças e semelhanças no interior desses conceitos. A forma de pensar apenas a partir das dessemelhanças nos leva a ver o mundo como um conjunto de cópias de um original ideal, em vez de um fluxo contínuo de diferenças entre este original e tudo o que lhe é diferente.

Deleuze também destaca a representação finita e a orgânica. A finita caracteriza-se pela mediação da diferença através da identidade, ou seja, em vez de enxergar a realidade em sua constante transformação, a representação finita estabelece uma unidade original, uma espécie de identidade primitiva, sendo as diferenças submetidas a essa unidade. Essa identidade primitiva funciona como um gênero, um conceito universal que engloba e classifica as diversas coisas. Dessa forma, a representação finita cria uma imagem estática e hierarquizada da realidade, na qual a multiplicidade é reduzida a um conjunto de categorias e conceitos fixos.  Já a representação orgânica baseia-se na mediação da diferença entre coisas e conceitos, na qual a diferença entre eles é analisada à luz de variáveis como a sua relação com o conceito primitivo, se há oposição a este primitivo ou se há analogias e semelhanças entre eles. Na orgânica, há uma proposta de pensamento que, embora reconheça a existência da diferença, limita-a e ordena-a, transformando-a em um elemento a serviço da construção de um sistema conceitual ampliado, mais coerente e unificado.

Deleuze também explora as diferenças no infinito e as diferenças no limite tendendo a zero. As diferenças no infinito são aquelas que se encontram nos processos contínuos e indeterminados, como na associação do tempo e do espaço preconizada pela física. As diferenças no limite tendendo a zero, por sua vez, são aquelas que se encontram nos processos discretos, determinados e gradativos, como os números e as formas geométricas (Deleuze, 2018 p. 77).  Deleuze também discorre sobre a representação infinita, em contraste com a finita. Para ele, a representação infinita da diferença coloca, por exemplo, tudo o que existe como parte de um Todo. A representação infinita, portanto, não busca uma ordem preestabelecida, mas uma compreensão da totalidade que inclui a diferença como um elemento constitutivo e fundamental de partes desse Todo, permitindo uma visão mais dinâmica e abrangente da realidade. Apesar desse olhar positivo para com a diferença no infinito, Deleuze coloca que:

A representação infinita tem, pois, o mesmo defeito da representação finita: o de confundir o conceito próprio da diferença com a inscrição da diferença na identidade do conceito em geral (se bem que tome a identidade como puro princípio infinito, em vez de tomá-la como gênero, e estenda ao todo os direitos do conceito em geral, em vez de fixar-lhe os limites). (Deleuze, 2018 p.79)

É possível notar, neste trecho, que Deleuze aponta uma limitação tanto da representação finita quanto da infinita: ambas confundem a natureza da diferença. Enquanto a representação finita subordina a diferença à identidade, aprisionando-a nos limites de uma identidade primitiva, a representação infinita, embora reconheça a diferença como um princípio fundamental, a inscreve em uma identidade mais ampla. Em ambas as formas de representação, contudo, a diferença sai do lugar da maldição e passa a ser integrada a um sistema de classificação e de análise.

Além disso, associada à filosofia da diferença, Deleuze propõe a cartografia, que pode ser compreendida como uma proposta metodológica para o estudo de fenômenos sociais, considerada inventiva e não representacional, ancorada na filosofia da multiplicidade de Deleuze e Guattari. Distanciando-se das abordagens tradicionais, do dogmatismo científico e da busca por verdades únicas, essa perspectiva metodológica foca na compreensão profunda das dinâmicas, fluxos e intensidades dos fenômenos, mas com ampla possibilidade de caminhos e procedimentos possíveis de investigação. Seu alicerce metodológico é o "rizoma" — um sistema aberto e sem hierarquias, regido por princípios de conexão, heterogeneidade, multiplicidade e ruptura a-significante (Deleuze & Guattari, 1995, p. 14, como citado em Vicente & Silva, 2018). Mais do que uma ferramenta descritiva, a força dessa cartografia metodológica reside em sua recusa frontal aos modelos representacionais fixos e ao pensamento estruturalista ou metafísico. Ao abandonar as "grandes narrativas" predeterminadas em prol da incerteza, da transformação contínua e da multiplicidade de caminhos (Filho & Carvalho, 2024), o conceito de rizoma materializa, espacial e metodologicamente, a filosofia da diferença, criando formas de pesquisar a partir das diferenças identificadas no fenômeno pesquisado. Em nítida oposição ao pensamento tradicional, a rede rizomática descentralizada permite conexões imprevisíveis entre quaisquer de seus pontos. Essa estrutura de pesquisa, que é horizontal, garante que a diferença não seja reduzida a um erro, um desvio ou uma falta em relação a um padrão normativo, mas afirmada como uma potência puramente positiva (Deleuze & Guattari, 2010).

É sob essa mesma lógica de ruptura de aspectos muito padronizados que emerge a esquizoeducação nos estudos sobre Deleuze. Apoiada nos trabalhos de Mendes (2021) e Araújo (2013), ela se configura como uma práxis pedagógica desestabilizadora que desmantela as estruturas e os currículos rígidos da educação tradicional. Derivada da esquizoanálise de Deleuze e Guattari, a esquizoeducação atua como uma ferramenta crítica para denunciar e combater a forma "esquizofrênica" com a qual o capitalismo molda e fragmenta a nossa subjetividade (Araújo, 2013). Em vez de aceitar verdades e identidades pré-fabricadas, a esquizoeducação desvela as forças de controle que nos aprisionam, buscando impulsionar caminhos de libertação, desconstrução e criação. Assim, "bagunçar" o normativo torna-se uma prática de resistência contra a "escravidão de si", conectando o ensino às lutas diárias contra as opressões e desigualdades (Mendes, 2021). Intrinsecamente enraizada na filosofia da diferença, a proposta pedagógica da esquizoeducação repudia a concepção do aprendizado como a simples assimilação de informações ou a reprodução de modelos. Isso porque, para Deleuze (2018), a diferença é uma força afirmativa, singular e criadora que engendra o novo - um verdadeiro motor de mudança.

Consequentemente, na esquizoeducação, a diferença atua como o propulsor da aprendizagem, compreendida aqui como um constante devir (vir-a-ser) e uma experimentação ininterrupta. Segundo Mendes (2021), o devir deve libertar o aluno de enquadramentos pré-existentes, transformando o ambiente educacional em um território aberto ao inesperado, fomentando a produção de novas subjetividades e multiplicando as potências de pensamento e de ação na relação do sujeito com o mundo. Para compreender o alcance prático desse "devir", o estudo de Barbosa (2010) esclarece que o conceito não se confunde com a imitação (mimese) ou com a simples adoção da forma de um outro sujeito. Longe do campo visível das representações ou da busca por formas idealizadas, o devir opera em uma dimensão invisível, pré-formal e pré-individual. Ele diz respeito à ininterrupta composição e decomposição das partículas de um corpo, alterando radicalmente seus ritmos de velocidade e lentidão, expandindo ou retraindo sua capacidade de afetar e ser afetado nos encontros com o mundo. Trata-se de um movimento de "dupla captura" e reciprocidade: não há um sujeito fixo que imita e outro que é imitado, mas corpos que se arrastam mutuamente para novas zonas de existência, transformando-se de modo paralelo e assimétrico. A conexão essencial do devir com a filosofia da diferença repousa em sua potência intrínseca de "se diferenciar de si mesmo" (Deleuze, 2018 p.53).

As diferenças na física e no ensino de ciências

Para entendermos as diferenças no corpo teórico da física,  estudamos o livro  A Matéria: uma aventura do espírito: fundamentos e fronteiras do conhecimento físico, escrito pelo físico-educador Luís Carlos de Menezes, publicado em 2006, a dissertação de mestrado de Flaviston Ferreira Pires (2020), intitulada Influências das concepções de estética e simetria de licenciandos em Ciências no ensino da Mecânica Newtoniana, pesquisa  que investigou a influência da estética e da simetria no ensino da mecânica newtoniana, por fim, também estudamos o artigo Estética y simetría en las concepciones alternativas de espacio en la mecánica newtoniana (Pires e Silva, 2022), cujo foco era o ensino do espaço físico homogêneo e isotrópico.

A partir de uma leitura aprofundada da obra de Menezes (2006), identificamos cinco categorias distintas para a "diferença": 

Quadro 1: Categorias de diferenças a partir da obra de Menezes

Categoria

Explicação

Diferença como elemento matemático

Manifesta-se através das operações de subtração ou de gradiente, atuando como um operador que quantifica variações, como o teorema da energia cinética.

Diferença como mudança

Denota uma transformação dinâmica de estados, processos ou grandezas, exemplificada pela alteração significativa das massas nucleares em reações.

Diferença como dualidade

Surge na oposição clara entre conceitos, onde a distinção entre os elementos é fundamental para a definição de cada um. É o caso, por exemplo, da diferença entre força e energia.

Diferença como um fenômeno

Constitui um conceito ou um processo que gera e transforma a realidade, sendo ele mesmo um conceito da física.  Por exemplo: a diferença de potencial, fundamental para que ocorra corrente elétrica, tem uma existência que o caracteriza como uma grandeza relevante no corpo teórico da física.

Diferença como explicação de um fenômeno

 A diferença é apresentada como a força motriz ou uma propriedade intrínseca que origina e molda eventos físicos. É o caso da diferença de temperatura, que faz com que ocorra troca de calor.

Fonte: Os autores (2025).

Ao explicitarmos essas possíveis categorias da física, notamos a profundidade e a versatilidade com que o termo "diferença" aparece, transcendendo a mera representação matemática, tornando-se um pilar conceitual na compreensão dos fenômenos físicos. Rezende (2024) mostra que a conotação mais recorrente na obra de Menezes foi o da diferença com o sentido de fenômeno (32%), enquanto o sentido de mudança foi o que menos apareceu (6%). Curiosamente, os usos da diferença no sentido matemático e de dualidade apareceram com uma frequência muito similar, sendo 17% e 18% respectivamente. Já a diferença como explicação para a ocorrência de um fenômeno, que é a categoria que mais se aproxima das ideias deleuzianas, apareceu em menos de um terço de todo corpo teórico (27%). Isso indica um certo distanciamento entre as ideias propostas por Deleuze e as ideias de diferença que aparecem no corpo teórico da física, ainda que Menezes tenha escrito o livro dando forte ênfase às escolhas estéticas e às simetrias presentes nos fundamentos da física.

Há outros aspectos da obra de Deleuze que têm alguma semelhança com a física. Por exemplo, a analogia, colocada por ele como uma tentativa superficial de estabelecer diferenças apenas a partir da identidade primitiva, sendo as diferenças apenas uma derivação desta identidade. A nosso ver, a analogia assemelha-se à categoria da diferença como elemento matemático, posto que a linguagem matemática, com suas operações como delta, derivada e subtração, atua como uma ferramenta para organizar e representar o mundo em categorias e conceitos, diferenciando-as cabalmente. Outro aspecto deleuziano é a representação por oposição que, a nosso ver, encontra sua correspondência na física com a categoria da diferença como dualidade. Essa categoria, em que a diferença estabelece uma relação que delimita e define elementos em clara oposição de um a outro, reflete as "diferenças genéricas" ou "formais" que Deleuze discute como parte da representação finita. Por fim, o aspecto da semelhança em Deleuze, associado à diferença infinita, assemelha-se à nossa categoria de diferença como mudança. Isso porque há a ideia de que, dentro de toda diferença, há alguma semelhança, podendo haver gradação e continuidade em relação a uma identidade primitiva. Ademais, a representação infinita transcende a mera relação entre forma e matéria, buscando abarcar a totalidade e a complexidade do que está sendo compreendido (Rezende, 2024).

Ainda que notemos essas semelhanças, há fundamentalmente uma divergência entre a concepção de diferença na física e a proposta por Deleuze, que defende a existência autônoma das coisas, sem que precisem ser criadas em função de outras já existentes. Na física, na prática, todos os conceitos estão entrelaçados, de modo que é possível construir mapas conceituais a partir de qualquer conceito físico (Salém, 1986). Porém, ao olharmos a física com a ênfase aos seus fundamentos estéticos, notamos uma semelhança fulcral com Deleuze: o fato de seu corpo teórico contemplar, essencialmente, a presença das diferenças para que ocorram os fenômenos físicos (diferença de pressão, de temperatura, de densidade, de energia, de carga elétrica, de massa, de tensão etc.). Nesse sentido, no corpo teórico da física, a física une-se a Deleuze quando este defende a saída do lugar de “maldição” costumeiramente dada às diferenças.

Apresentamos, a seguir, como fizemos para identificar se essas ideias impregnam as publicações da educação e do ensino de ciências.

Como fizemos a nossa pesquisa

Para respondermos à nossa pergunta de investigação, optamos por realizar uma pesquisa bibliográfica (Minayo, 1994), cujo principal finalidade é o de tornar possível alguma síntese levando em consideração uma grande gama de informações, permitindo a utilização de dados de várias publicações, buscando uma melhor definição para expressar as ideias conceituais que envolvem determinado objeto de estudo. Ao considerar esse tipo de pesquisa, que costuma ser qualitativa, é preciso levar em consideração que todo estudo tem suas particularidades históricas, porque é localizado no tempo, não somente na perspectiva do pesquisador, mas da sociedade também. (Sousa et al., 2021)

No caso desta pesquisa, dentre os portais e bases de dados consultados, destacam-se o Catálogo de Teses e Dissertações da Capes, a biblioteca eletrônica Scientific Electronic Library Online (SciELO), o google acadêmico, a revista Ciências & Educação e a revista Educação & Sociedade. Essa seleção visou conseguir alguma abrangência acerca da produção acadêmica nacional sobre o tema em tela. A coleta foi realizada por meio de palavras-chaves de busca que combinavam termos como "Deleuze", "Educação", "Ensino de Ciências" e "Diferença". Em seguida, selecionamos aqueles cujo título e resumo demonstravam aderência com a temática da pesquisa. Após a coleta, o material foi submetido a um processo de organização e interpretação para transformar dados brutos em conhecimento científico. Utilizamos a análise de conteúdo de Bardin (2016) para identificar núcleos de sentido e padrões recorrentes nas obras, facilitando a compreensão de como as ideias de Deleuze aparecem em pesquisas da área de ensino de ciências. Esses núcleos e sentidos serão apresentados a seguir.

Resultados e análises

Durante a nossa pesquisa, foram analisados os primeiros 100 resultados de cada busca em cada portal, uma vez que a aderência temática tendia a diminuir drasticamente após esse marco. A seleção final baseou-se na análise do título e do resumo, verificando o alinhamento com os objetivos da pesquisa e a discussão efetiva do conceito de diferença. No Quadro 2, a seguir, apresentamos a quantidade de publicações encontradas sobre filosofia da diferença no Catálogo de Teses e Dissertações da Capes.

Quadro 2: Quantidade de publicações encontradas no Catálogo de Teses e Dissertações da Capes

Expressão de busca

Totais

Selecionados

Percentagem

Exemplo

"Deleuze" + "educação"

0

0

0%

Não houve

"Deleuze" + "ensino de ciências"

0

0

0%

Não houve

"Deleuze" + ensino

188

4

2%

SILVA, Wagner Rodrigues da. Ressonâncias do aprender em Deleuze em um fazer docente a partir da exploração do conceito de fração em turmas do sexto ano do ensino fundamental. 2017. 65 f. Dissertação (Mestrado Profissional em Ensino de Matemática) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2017.

"Deleuze" + ensino + ciências

25

5

20%

FARY, Bruna Adriane. Devir da química e vertigens da diferença: série Breaking Bad. 2017. Dissertação (Mestrado em Ensino de Ciências e Educação Matemática) – Universidade Estadual de Londrina, Londrina, 2017.

Deleuze + educação

577

8

1%

GONTIJO, Pedro Ergnaldo. Nos caminhos de uma educação por vir: ressonâncias e deslocamentos em Deleuze. 2008. Tese (Doutorado em Educação) – Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2008.

Deleuze + educação + ciências

70

1

1%

SOUZA, Guiomar de. A entredisciplinaridade na educação matemática: entre ciência, arte e filosofia. 2022. Dissertação (Mestrado Profissional em Ensino de Ciências Exatas) – Universidade Federal do Rio Grande, Santo Antônio da Patrulha, 2022.

"Deleuze" + " educação" + "ciências"

0

0

0%

Não houve

Deleuze + diferença + educação

169

5

3%

ROSS, Ana Paula. Aprender como acontecimento: um estudo com Gilles Deleuze. 2005. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2005.

Deleuze + educação + física

30

1

3%

MENDES, Tarcísio Moreira. Esquizoeducação II aplicada à educação: performance e contracolonialismo. 2021. Tese (Doutorado em Educação) – Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2021.

Deleuze + educação + ensino de física

13

0

0%

Não houve.

Deleuze + educação + ensino de ciências

37

3

8%

MENEZES, Carla Maria. Por uma educação estética: Gilles Deleuze e Marco Lucchesi. 2023. Dissertação (Mestrado Profissional em Gestão e Práticas Educacionais) – Universidade Nove de Julho, São Paulo, 2023.

Fonte: Os autores (2025).

A busca no Catálogo de Teses e Dissertações da CAPES evidenciou um comportamento de alta sensibilidade à captação de artigos, porém de baixa precisão para descritores abrangentes. Buscas generalistas, como Deleuze + educação, retornaram um volume expressivo superior a 500 publicações, das quais obtivemos uma taxa de aproveitamento inferior a 10%, indicando que a grande maioria não problematizava o conceito de diferença sob a nossa ótica pretendida. Em contrapartida, combinações mais específicas, como "Deleuze" + ensino + ciências, resultaram em uma amostragem total reduzida (25 trabalhos), mas proporcionaram um índice de seleção superior (20%).

 

Quadro 3: Quantidade de artigos encontrados no Portal SciElo

Expressão de busca

Totais

Selecionados

Percentagem

Exemplo

Deleuze + educação

0

0

0%

Não houve

Deleuze + ensino de ciências"

0

0

0%

Não houve

Deleuze

344

12

3%

VEIGA, Ádamo Bouças Escóssia da. A ontologia especulativa de Gilles Deleuze: a diferença em si mesma. Kriterion: Revista de Filosofia, v. 64, n. 155, p. 589–609, ago. 2023.

Deleuze + educação AND diferença

17

5

29%

VINCI, Christian Fernando Ribeiro Guimarães. O canto dos malditos: uma análise quantitativa da difusão do pensamento de Gilles Deleuze na pesquisa educacional brasileira (1990-2010)1. Pro-Posições, v. 28, p. 12–38, set. 2017.

Deleuze + educação + ciências

5

1

20%

RAMOS, Maria Neide Carneiro; BRITO, Maria dos Remédios de. As linhas que tecem o aprender e o ensinar em ciências. Ensaio Pesquisa em Educação em Ciências (Belo Horizonte), v. 20, p. e2 726, 2018.

Fonte: Os autores (2025).

No portal SciELO, os padrões de recuperação apresentaram um contraste importante em relação ao Catálogo de Teses e Dissertações da CAPES. Observamos a ausência de resultados para cruzamentos diretos básicos, como Deleuze + educação e Deleuze + ensino de ciências, sugerindo diferenças fundamentais nos algoritmos de indexação da plataforma. No entanto, a base demonstrou alta eficácia ao incorporar especificidade conceitual e operadores de interseção: a busca por Deleuze + educação AND diferença gerou a maior taxa de conversão do levantamento, com 29% de aproveitamento (5 trabalhos selecionados dentre 17 encontrados). Tais achados confirmam que, para certas bases de dados, a explicitação direta do conceito-chave da pesquisa é indispensável para superar barreiras de indexação e garantir a extração de dados relevantes.

Gráfico 1: Porcentagem de trabalhos selecionados por tipo de publicação em todos os portais pesquisados

 

Fonte: Os autores (2025).

A análise final, composta por 53 trabalhos selecionados em todos os portais pesquisados, revelou-nos uma distribuição diversificada quanto à tipologia das publicações. No panorama geral, observamos uma predominância de dissertações (37,7%) e artigos científicos (33,9%), seguidos pelas teses de doutorado (20,7%) e, em menor proporção, pelos capítulos de livro (7,5%). A expressiva presença de teses evidencia a densidade da temática. A complexidade inerente à articulação dos conceitos de Deleuze, especialmente o da "diferença", exige frequentemente um fôlego investigativo e um rigor teórico característico de pesquisas de nível de doutorado. Em contrapartida, a baixa incidência de capítulos de livro aponta para possíveis limitações na indexação desse formato nas bases estruturadas ou para um viés intrínseco aos próprios algoritmos de busca.

Resultados da pesquisa na área da educação

Para aprofundarmos no entendimento sobre a influência de Gilles Deleuze no campo educacional, optamos, em nossas buscas, pela exclusão temporária dos estudos voltados especificamente ao ensino de ciências, justificando tal delimitação pela baixa expressividade quantitativa desse escopo na amostra. O Quadro 4 sistematiza os artigos encontrados e analisados por meio de uma categorização temática fundamentada nos pressupostos metodológicos de Bardin (2016). Desse modo, as publicações foram organizadas em seis categorias estruturantes: (1) Modelos de aprendizagem, que engloba a aplicação dos conceitos deleuzianos no contexto da educação básica; (2) Discussões curriculares e análises de programas de ensino; (3) Metodologia de pesquisa, centrada na avaliação e na reformulação de aportes investigativos sob a ótica de Deleuze; (4) Formação docente; (5) Gestão escolar e suas respectivas práticas; e (6) Discussões teórico-filosóficas, focadas nos desdobramentos conceituais intrínsecos à obra do autor.

Quadro 4: Principais assuntos abordados nas publicações sobre educação

Assunto abordado

Quantidade

valores absolutos

Quantidade percentagem

Exemplo

Modelo de aprendizagem

2

10%

SILVA, Wagner Rodrigues da. Ressonâncias do aprender em Deleuze em um fazer docente a partir da exploração do conceito de fração em turmas do sexto ano do ensino fundamental. 2017. 65 f. Dissertação (Mestrado Profissional em Ensino de Matemática) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2017.

Discussão de currículo

1

5%

SANTOS, Amarildo Inácio dos. Dançando sobre vulcões: educação escolar e governamento do desejo e da diferença. 2022. 210 f. Tese (Doutorado em Educação) – Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2022.

Discussão de metodologia de pesquisa

0

0

Não houve

Formação de professores

1

5%

RIBEIRO, Heula Mayara Almeida Soares. Conceituar o professor no abecedário de Gilles Deleuze: referências para a educação e filosofia. 2020. 111 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade de São Paulo - Campus Ribeirão Preto, Ribeirão Preto, 2020.

Gestão de práticas educacionais

1

5%

MENEZES, Carla Maria. Por uma educação estética: Gilles Deleuze e Marco Lucchesi. 2023. 94 f. Dissertação (Mestrado Profissional em Gestão e Práticas Educacionais) – Universidade Nove de Julho, São Paulo, 2023.

Discussão teórica

15

75%

ROOS, Ana Paula. Aprender como acontecimento: um estudo com Gilles Deleuze. 2005. 90 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2005.

Fonte: Os autores (2025).

O mapeamento dessa distribuição revelou-nos a predominância dos trabalhos focados em discussão teórica, que representam 75% das publicações encontradas. Essa concentração evidencia que a academia tem priorizado o aprofundamento e a articulação dos conceitos de Deleuze no plano das ideias, contribuindo para o arcabouço filosófico na educação. Contudo, essa hegemonia expõe uma lacuna significativa quanto às investigações empíricas e aplicadas em realidades escolares. O restante dos trabalhos (apenas 25%) está pulverizado em publicações que descrevem esforços para aplicar a filosofia da diferença em realidades escolares. No eixo de modelos de aprendizagem (10%), notamos o uso de referenciais como Proust e a discussão dos Signos para pensar o ensino das disciplinas. 

Mais do que a discussão do conceito de diferença, a análise dos trabalhos revelou a presença dos demais conceitos deleuzianos, sobretudo o de rizoma, o da cartografia, a aprendizagem por signos e o da esquizoeducação.  Nesse contexto, a "cartografia", introduzida pelos filósofos no primeiro volume de Mil Platôs, desponta nas publicações encontradas não apenas como um conceito teórico, mas como uma abordagem metodológica promissora para a pesquisa acadêmica da área de educação. Intrinsecamente ligada a esses percursos abertos está a própria concepção deleuziana de aprendizagem, compreendida como um processo temporal mediado por signos. O conteúdo a ser apreendido emite signos que exigem decifração para que se possa atribuir sentido às coisas. Contudo, como ressalta Silva (2017), embora a sensibilidade para interpretar esses signos seja considerada um dom, a sua mera existência no ambiente não garante, por si só, que a aprendizagem ocorra. É exatamente para dar conta dessa imprevisibilidade e complexidade que emerge o conceito de esquizoeducação (Mendes, 2021). Essa noção atua como uma lente analítica poderosa para reivindicar a fluidez e as rupturas necessárias em oposição a modelos de ensino rígidos e homogeneizantes. Em suma, a perspectiva na área da educação inspirada em Deleuze atua como um convite constante à exploração das multiplicidades, consolidando a premissa de que o conhecimento nunca é uma aquisição passiva, mas um processo ininterrupto de criação e diferenciação contínua (Silva, 2017).

Por fim, a análise dos resultados também nos revelou indícios de que o pensamento de Deleuze é reconhecido como um campo conceitual potente para a educação em geral, mas ainda há um caminho a ser percorrido na transposição dessa riqueza teórica para a pesquisa aplicada e, especialmente, para o desenvolvimento de metodologias que efetivamente busquem contemplar a complexidade e a singularidade das práticas educativas. A aposta na filosofia da diferença implica em um convite à desconstrução de verdades hegemônicas e à construção de novos saberes que emergem das experiências e das multiplicidades, transformando a pesquisa em educação e a área da educação em um ato de criação e de resistência às padronizações em geral.

Resultados a pesquisa na área de ensino de ciências

Mostraremos a seguir um panorama das 9 publicações encontradas especificamente na área de ensino de ciências a partir dos nossos critérios de pesquisa.  O Quadro 5 detalha cada publicação, informando título, autoria e ano, o local de publicação, a temática abordada e, de forma crucial, como as noções de diferença e outros conceitos deleuzianos aparecem em cada trabalho.

Quadro 5: Publicações na área de ensino de ciências

Título, autor e ano

Onde foi publicado

Temática abordada

Como as diferenças aparecem

SILVA, Elenita Pinheiro de Queiroz. A invenção do corpo e seus abalos: diálogos com o ensino de biologia. 2010. 201 f. Tese de Doutorado em educação – Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2010.

Biblioteca Universidade Federal de Uberlândia

Intersecções entre Ensino de biologia e algumas ideias de Deleuze

Não aparecem

FARY, Bruna Adriane. Devir da química e vertigens da diferença: série Breaking Bad. 2017. 60 f. Dissertação (Mestrado em Ensino de Ciências e Educação Matemática) – Universidade Estadual de Londrina, Londrina, 2017.

Biblioteca Setorial de Educação

Devir da química

Diferença como causa dos fenômenos.

RAMOS, Maria Neide Carneiro. Por um ensino e uma aprendizagem da criação ou da problematização ou da... As linhas que compõem as mobilidades e as experiências docentes de professoras de ciências. 2012. 105 f. Dissertação (Mestrado em Educação em Ciências e Matemáticas) – Universidade Federal do Pará, Belém, 2012.

Biblioteca Setorial do IEMCI - UFPA

Idéias de Deleuze e outros filósofos com a formação de professores

Diferença como motor de mudança e reflexão do papel do professor

ARAÚJO, Marcia Santiago de. Sonhos no devir das redes do Centro de Educação Ambiental, Ciências e matemática. 2009. 171 f. Tese (Doutorado em Educação Ambiental) – Universidade Federal do Rio Grande, Rio Grande, 2009.

Biblioteca Setorial Sala Verde "Judith Cortesão"

Educação ambiental

Diferenças relacionadas ao devir.

SANTOS, Gabriel Tenorio dos. Travessias e travessuras com ciências em produções infantis imagéticas na educação infantil. 2019. 65 f. Dissertação de mestrado em ensino de ciências da natureza – Universidade Federal de Rondônia, Rolim de Moura, 2019.

Biblioteca Fernando Pessoa UNIR

Educação infantil

Não aparece

SOUZA, Guiomar de. A entredisciplinaridade na educação matemática: entre ciência, arte e filosofia. 2022. 105 f. Dissertação (Mestrado Profissional em Ensino de Ciências Exatas) – Universidade Federal do Rio Grande, Santo Antônio da Patrulha, 2022.

ARGO - Sistema de Administração de Bibliotecas

Experimentações interdisciplinares

Não aparece

JORGE, Camila. Corpos em criação: Aprendizagens entre educação, palhaçaria e cartografia. 2022. 197 f. Dissertação de mestrado em educação de ciências e em matemática – Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2022.

Biblioteca de Ciências e Tecnologia - UFPR

Cartografia como método de pesquisa de uma prática de ensino de ciências

Diferença relacionada à multiplicidade

LIMA, Jordana Lima de Moraes de. Agenciamentos coletivos-inclusivos no ensino fundamental: cartografia de uma experiência de invenção de mundos no ensino de ciências. 2021. 105 f. Mestrado profissional em ensino de ciências da Universidade Federal do Pampa, Bagé, 2021.

Repositório institucional Universidade Federal do Pampa

Cartografia como método de pesquisa de uma prática de ensino de ciências

Não aparecem

TOFFOLI, Gabriela de Sousa. Hortas urbanas e modos de vida minoritários. 2019. Dissertação de mestrado em educação de ciências e em matemática – Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2019.

 Biblioteca de Ciências e Tecnologia - UFPR

Educação ambiental

Não aparecem

Fonte: Os autores (2025).

Ao analisarmos o Quadro 5, observamos que, apesar de encontrarmos estudos que dialogam com as ideias de Deleuze, a discussão explícita das diferenças aparece, em muitos casos, de forma secundária nas discussões. Esse dado chama a atenção diante da riqueza teórica da diferença no pensamento deleuziano e de seu potencial para inovar o ensino de ciências, rompendo com modelos padronizados em prol da valorização das multiplicidades, além da sua própria importância da diferença para as ciências da natureza. A baixa expressividade da diferença como eixo conceitual ou metodológico explicita que, embora exista interesse em aproximar Deleuze da área, o aprofundamento dessa articulação ainda é um campo que carece de maior desenvolvimento.

Voltando as representações de Deleuze para o conceito da diferença, não encontramos nenhuma publicação que discutisse a representação finita ou infinita. Porém, a representação das diferenças no limite tendendo a zero (ou infinitamente pequenas) apareceu nos quatro artigos, uma vez que, neles, a discussão destacava a ideia de diferenças como fator de multiplicidade, de criação e de produção de mudanças.

Considerações finais

Em um cenário de valorização da diversidade (Santos et.al., 2021), é importante que os estudiosos do ensino de ciências analisem como podem contribuir para um mundo que respeite a diversidade. A integração da filosofia contemporânea, sob a lente de Gilles Deleuze, com os fundamentos da ciência do seu ensino, pode ser uma boa medida para aumentar a discussão das diferenças na área de ensino e na educação. 

As análises realizadas demonstram que, embora haja um crescente interesse nas ideias deleuzianas em educação e no ensino de ciências, a apropriação do conceito de diferença ainda é secundária na maioria dos trabalhos.

A predominância esmagadora de publicações de cunho teórico (75%) na área da educação, que exploram e aprofundam conceitos de Deleuze e Guattari, contrasta com o menor desenvolvimento de pesquisas aplicadas que utilizam a filosofia da diferença como referencial teórico. Especificamente no ensino de ciências, 6 das 9 publicações analisadas demonstram que o conceito de diferença "não aparece" nelas, o que indica um potencial inexplorado para repensar a didática e a prática pedagógica. 

Em nosso trabalho, buscamos retirar as diferenças do lugar da maldição, colocando-as a serviço da educação e do ensino de ciências, de modo a valorizar a diversidade. Mostramos que a retirada do lugar de ‘maldição' das diferenças é a principal semelhança entre a forma com que as ciências, especialmente a física, tratam-nas, e a proposta deleuziana contemplada em sua filosofia da diferença.

Com base nos resultados obtidos, este estudo vislumbra caminhos promissores para investigações futuras. Há um campo fértil para examinar como a ênfase nas diferenças pode reestruturar o ensino de ciências, promovendo práticas que privilegiam a criação e a multiplicidade em detrimento da padronização dos processos e estratégias de ensino. Por fim, dada a densidade do referencial deleuziano, incentivamos a busca por metodologias pedagógicas que traduzam esses conceitos complexos em ações concretas no cotidiano educacional.


 

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