PROMETEICA - Revista de Filosofia y Ciencias. 2026, v. 33
Artículos
https://doi.org/10.34024/prometeica.2026.33.21528
REFLEXÕES SOBRE UM MÉTODO
MEDIA AND GENEALOGY OF POWER
Reflections on a method
LOS MEDIOS Y GENEALOGÍA DEL PODER
Reflexiones sobre un método
Patricio Dugnani
(Universidade Presbiteriana Mackenzie, Brasil)
Marcos Nepomuceno Duarte
(Universidade Presbiteriana Mackenzie, Brasil)
Recibido: 28/11/2025
Aprobado: 29/04/2026
RESUMO
Esse artigo não pretende desenvolver um método histórico de análise do presente, mas refletir se seria possível observá-lo a partir da relação entre o pensamento metodológico da Genealogia do Poder de Michel Foucault e a Teoria dos Meios de Marshall McLuhan. Sendo assim, através de um método teórico e exploratório, para compreender como o estudioso francês desenvolveu seus métodos de análise, essa reflexão deverá ser iniciada pela compreensão de que a Genealogia do Poder é precedida, na obra de Foucault, pelo desenvolvimento do que ele denominou como Arqueologia do Saber. Depois dessa compreensão, acrescida pela leitura do método arqueológico, realizada por Giorgio Agamben, é que se pretende relacionar a Teoria dos Meios à Genealogia do Poder. Esse cruzamento busca sugerir um caminho para uma análise histórica da Modernidade Tardia, que leve em consideração as transformações produzidas pelo uso dos meios de comunicação. O que se procura são indícios que possam indicar um caminho para confirmar a possibilidade de que essas relações sejam capazes de revelar, pela análise dos dilemas do presente, as artimanhas discursivas do saber e a dinâmica nas relações de poder mediadas pelos processos de comunicação.
Palavras-chave: genealogia do poder. modernidade tardia. comunicação. método.
ABSTRACT
This article does not intend to develop a historical method of analyzing the present, but to reflect on whether it would be possible to observe it based on the relationship between the methodological thinking of Michel Foucault's Genealogy of Power and Marshall McLuhan's Theory of Means. Therefore, through a theoretical and exploratory method, to understand how the French scholar developed his methods of analysis, this reflection must be initiated by the understanding that the Genealogy of Power is preceded, in Foucault's work, by the development of what he called as Archeology of Knowledge. After this understanding, augmented by the reading of the archaeological method, carried out by Giorgio Agamben, the intention is to relate the Theory of Media to the Genealogy of Power. This intersection seeks to suggest a path for a historical analysis of Late Modernity, which considers the transformations produced using the media. What we are looking for are signs that may indicate a path to confirm the possibility that these relationships can reveal, through the analysis of present dilemmas, the discursive tricks of knowledge and the dynamics in power relations mediated by communication processes.
Keywords: genealogy of power. late modernity. communication. method.
RESUMEN
Este artículo no pretende desarrollar un método histórico de análisis del presente, sino reflexionar sobre si sería posible observarlo a partir de la relación entre el pensamiento metodológico de la Genealogía del poder de Michel Foucault y la Teoría de los medios de Marshall McLuhan. Por lo tanto, a través de un método teórico y exploratorio, para comprender cómo el estudioso francés desarrolló sus métodos de análisis, esta reflexión debe iniciarse por la comprensión de que la Genealogía del Poder está precedida, en la obra de Foucault, por el desarrollo de lo que llamó Arqueología. del Conocimiento. Después de esta comprensión, aumentada por la lectura del método arqueológico, realizada por Giorgio Agamben, se pretende relacionar la Teoría de los Medios con la Genealogía del Poder. Esta intersección busca sugerir un camino para un análisis histórico de la Modernidad Tardía, que tenga en cuenta las transformaciones producidas por el uso de los medios de comunicación. Lo que buscamos son señales que puedan indicar un camino para confirmar la posibilidad de que estas relaciones sean capaces de revelar, a través del análisis de los dilemas actuales, los trucos discursivos del conocimiento y las dinámicas en las relaciones de poder mediadas por procesos de comunicación.
Palabras clave: genealogía del poder. modernidad tardía. comunicación. método.
Estudar a história, diz o senso comum, é entender o passado, para compreender o presente e projetar o futuro. Talvez muitos dos leitores já escutaram essa frase de efeito e concordaram, sem restrições, com o teor e a interpretação que ela sugere em sua bela e eficiente formulação.
Contudo, será que os métodos históricos, desenvolvidos por diversos pesquisadores, apenas seriam utilizáveis para compreender os registros que, muitas vezes, já viraram narrativas memoriais contaminadas por séculos de ideologias e preconceitos?
Acredita-se que as opiniões sobre os estudos de história estão muito relacionadas, no imaginário popular, ao estudo do passado. O passado, pela análise de Santo Agostinho (Fiorin, 1996) é representado pela memória, então equivocadamente se pode concluir que os estudos de história equivalem, somente, ao estudo do passado, ao estudo da memória.
No entanto, o presente não pode ser pensado como uma história em construção?
Essa pergunta deve permear aqueles que pretendem se aventurar num estudo da história do presente, incluindo quem escreve esse artigo, criando um incômodo na tentativa de respondê-la.
Tomando-se essa reflexão inicial, recomenda-se para aqueles que se interessarem pelo assunto, e queiram debater de maneira mais profunda essa questão, que o pesquisador inicie seus estudos pelas ideias de Michael Foucault (2012, 2005, 1990, 1984), juntamente com figuras como Giorgio Agamben (2019).
Longe de pretender responder essa questão de forma absoluta, ou desenvolver um método histórico de análise do momento presente, esse artigo busca refletir sobre uma possível relação entre a visão de uma história do presente, a comunicação como método e o pensamento metodológico da Genealogia do Poder de Foucault (2005 e 1984). Para essa reflexão sobre uma história do presente, que se pretende revelar pelo viés das transformações causadas pelos meios de comunicação, na visão de McLuhan (2016) e a Genealogia do Poder (suas microfísicas) de Foucault (2005, 1984), esse percurso deverá passar pela revisão de outro método desenvolvido por Foucault (2012 e 1990): a Arqueologia do Saber. Sendo que, para complementar essa observação feita sobre a Arqueologia do Saber, será levada em consideração a releitura desse método, realizada por Agamben em seu livro Signatura Rerun (2019).
Esses cruzamentos buscam sugerir um caminho para uma análise histórica do presente, através, principalmente, da observação da Genealogia do poder de Foucault (2005 e 1984), que leve em consideração as transformações produzidas pelo uso dos meios de comunicação, associando às ideias da Teoria dos Meios de Marshall McLuhan (2016). Esse movimento de aproximação entre os métodos de Foucault e os estudos de comunicação, não são originárias desse artigo, pois outros autores já têm buscado analisar essa possibilidade. Autores como P. Dugnani (2024) e I. Baptista (2016) analisaram essas questões, mas focando, principalmente, o cruzamento entre a Arqueologia do Saber e a comunicação. O aspecto positivo desse artigo reside na ideia de aproximar, agora, ao invés do método arqueológico de Foucault (2012 e 1990), o método da Genealogia do Poder, com a Teoria dos Meios de McLuhan (2016).
Nesse momento pretende-se apresentar as principais ideias relacionadas à teoria dos meios de McLuhan (2016), da Arqueologia do Saber de Foucault (1990), e do método de pesquisa baseado na assinatura, nos paradigmas e nas relações entre história e arqueologia de Agamben (2019). Essa descrição de métodos distintos visa constituir um panorama de diferentes teorias que podem se estruturar para a confecção de um primeiro esboço para um método de análise da comunicação que relaciona a arqueologia e os meios de comunicação. (Dugnani, 2024, p. 141)
Sendo assim, não se procura, nesse artigo, criar um novo método genealógico de uma história do presente fundamentada nas questões de comunicação, cruzadas com a Genealogia do Poder. Procura-se, sim, observar, refletir e indicar indícios que possam preparar o caminho para confirmar a possibilidade que essas associações sejam capazes de revelar, concordando com Foucault (1984), não apenas o passado como um movimento uniforme que se projeta e define o futuro (como, muitas vezes o senso comum imagina os estudos históricos), mas sim, o presente como resultado de deslocamentos históricos: “O objetivo da genealogia é traçar as lutas, os deslocamentos e os processos de redefinições a partir dos quais emergiram práticas contemporâneas, e mostrar as condições históricas de existência das quais dependem as práticas atuais” (Garland, 2014, p. 84).
Dessa forma, concordando com Foucault (1984), não estudar o passado, partindo de uma origem estática, a qual revelaria o presente e projetaria o futuro, como pode, enganosamente, sugerir o termo genealogia. Mas sim, estudar o presente, entendendo-o como um fenômeno dinâmico e contraditório: “(...) demarcar os acidentes, os ínfimos desvios – ou ao contrário as inversões completas – os erros, as falhas na apreciação, os maus cálculos (...)” (Foucault, 1984, p. 21)
A genealogia não pretende recuar no tempo para restabelecer uma grande continuidade para além da dispersão do esquecimento; sua tarefa não é a de mostrar que o passado ainda está lá, bem vivo no presente, animando−o ainda em segredo, depois de ter imposto a todos os obstáculos do percurso uma forma
delineada desde o início. Nada que se assemelhasse à evolução de uma espécie, ao destino de um povo. Seguir o filão complexo da proveniência é, ao contrário, manter o que se passou na dispersão que lhe é própria: é demarcar os acidentes, os ínfimos desvios − ou ao contrário as inversões completas − os erros, as falhas na apreciação, os maus cálculos que deram nascimento ao que existe e tem valor para nós; é descobrir que na raiz daquilo que nós conhecemos e daquilo que nós somos − não existem a verdade e o ser, mas a exterioridade do acidente. (Foucault, 1984, p. 21)
Através da análise das relações de poder (e, mesmo, de saber) acredita-se, como Foucault (2012, 2005, 1990, 1984), que seja possível desenvolver um método de análise do momento contemporâneo, momento esse o qual denominar-se-á Modernidade Tardia, concordando com Hartmut Rosa (2022 e 2019), quando denomina a contemporaneidade.
Com isso, acredita-se que pela análise dos dilemas do presente e os deslocamentos do passado; das artimanhas discursivas e a dinâmica nas relações de poder e saber; mediados pelos processos de comunicação é que se deve buscar entender a sociedade tardo moderna. Essa visão se constitui como uma proposição, ou melhor, como um esboço, uma sugestão, um ponto de partida, para o desenvolvimento de um método genealógico da sociedade tardo moderna através das análises das transformações influenciadas pelo uso dos meios de comunicação.
Nesse sentido, esse artigo, que não se compromete a entregar um método genealógico de pesquisa histórico e social, relacionado às transformações provocadas pela introdução de novos meios de comunicação, terá um compromisso principal: observar e sugerir essa possibilidade. Para isso, metodologicamente, o artigo começa por um resgate comparativo do estado da arte dos métodos da Arqueologia do Saber e da Genealogia do poder, para que seja possível entender algumas questões fundamentais da visão de Foucault (por causa disso, é que se optou pelo uso mais intenso de citações de diferentes autores). Depois, nessa argumentação, buscar-se-á verificar pontos de aproximação para que seja possível efetivar o cruzamento entre a visão da Teoria dos Meios de McLuhan (2016) e os métodos de Foucault. Assim, se espera ampliar o conhecimento dos métodos dessas duas visões científicas, e preparar um caminho para o desenvolvimento, futuramente, de um método híbrido de análise do presente.
Entre os anos de 1963 e 1969, segundo Prado Filho (2017), Foucault (2012, 2005, 1990) desenvolveu um método histórico para analisar o desenvolvimento do pensamento, assim como analisar o presente, não por sua sequência ou similaridades, mas, muito mais, pelos seus deslocamentos e contradições, o qual denominou Arqueologia do Saber. Essa visão arqueológica inaugurada por Foucault (2012 e 1990) busca através da análise dos paradigmas da sociedade, da busca das epístemes que constituem os discursos de uma época, entender a construção dos saberes em relação à constituição de significados e sentidos.
Nos anos 1960 – mais precisamente de 1963 a 1969 – ele dedicou-se à formulação de um método histórico singular de análise de discursos denominado arqueologia do saber, que pretendia tratar os discursos politicamente como práticas, por seus efeitos de verdade, e na sua exterioridade, descentrando de representações, significados e sentidos, buscando expor suas condições históricas de possibilidade e emergência. (Prado Filho, 2017, p. 312)
Mais recentemente, Agamben (2019) complementa essa visão, resgatando esse método de Foucault e afirmando que esse estudo deve mirar em “três problemas específicos do método: o conceito de paradigma, a teoria das assinaturas e a relação entre história e arqueologia (Agamben, 2019, p. 10).
Por volta dos anos de 1970, Foucault (2005 e 1984) desvia o direcionamento do seu desenvolvimento do método arqueológico do saber, para um estudo sobre a Genealogia do Poder. Na Genealogia do Poder, Foucault estuda os corpos disciplinados por dispositivos que se constituem nas relações de biopoder, como apresenta o autor, e Prado Filho confirma. Com isso, esse redirecionamento leva Foucault a desenvolver um estudo que busca apresentar as microfísicas do poder e seus efeitos na sociedade.
Nos anos 1970 ele passou a se dedicar ao desenvolvimento de um método histórico de análise de relações e práticas de poder, por ele mesmo denominado genealogia do poder, problematizando os biopoderes modernos: disciplinas e biopolíticas, os dispositivos, a objetivação dos corpos, jogos de poder operando como microfísica. Deslocamento de objeto – dos saberes para os poderes – deslocamento de método: de uma estratégia arqueológica para uma estratégia genealógica. (Prado Filho, 2017, p. 312)
Ele não busca estudar (assim como na Arqueologia do Saber) a origem do fenômeno das relações de poder como num desenvolvimento uniforme e unilateral, mas sim, como um fenômeno complexo, contraditório, descontínuo e errático, como afirma Garland: “(...) a ideia é traçar o processo errático e descontínuo pelo qual o passado se tornou o presente: um trajeto descendente, amiúde aleatório, que sugere a contingência do presente e a abertura do futuro” (Garland, 2014, p. 84).
Para Foucault (2012) os enunciados dos discursos de uma época são cambiantes e não uma estrutura organizada apenas por relações lógicas.
O enunciado não é, pois, uma estrutura (isto é, um conjunto de relações entre elementos variáveis, autorizando assim um número talvez infinito de modelos concretos); é uma função de existência que pertence, exclusivamente, aos signos, e a partir da qual se pode decidir, em seguida, pela análise ou pela intuição, se eles “fazem sentido” ou não, segundo que regra se sucedem ou se justapõem, de que são signos, e que espécie de ato se encontra realizado por sua formulação (oral ou escrita); é que ele não é em si mesmo uma unidade, mas sim uma função que cruza um domínio de estruturas e de unidades possíveis e que faz com que apareçam, com conteúdos concretos, no tempo e no espaço. (Foucault, 2012, p. 105)
Embora os métodos sejam reconhecidos para o uso da análise histórica dos discursos, sejam do saber ou sejam do poder (ou, ainda, sejam em sua relação no sentido de teoria e prática), tanto para Agamben (2019) quando se refere à Arqueologia do Saber, quanto para Prado Filho (2017), quando se refere à Genealogia do Poder, ambos não consideram que esses métodos apresentem, na argumentação de Foucault (2005 e 1984), um corpo teórico e conceitual coeso e absoluto. Para Agamben (2019) e Prado Filho (2017) são métodos que se constituem e se reconstituem, se atualizam, mediante a incerteza, a contradição e os deslocamentos dos discursos históricos.
Embora Foucault não tenha tematizado o funcionamento dos paradigmas, segundo Hubert Dreyfus e Paul Rabinow “parece claro que seu trabalho segue uma orientação que põe em prática essas noções [...]. Seu método consiste em descrever os discursos como articulações históricas de um paradigma e seu modo de conceber a análise implica que ele isole e descreva os paradigmas sociais e suas implicações concretas”. (Agamben, 2019, p. 10 e 11)
Interessam particularmente nesta reflexão os desenvolvimentos da genealogia como método de análise de relações, jogos e práticas de poder, enfrentamentos entre forças, atento às rupturas e descontinuidades históricas. Mas a genealogia do poder de M. Foucault não é tão delineada nem compõe um corpo coeso, unitário e uniforme de estudos que garantam evidência ao método – ela apresenta desníveis que implicam certa diversidade de problematizações. (Prado Filho, 2017, P. 312)
Sendo assim, Foucault apresenta dois métodos que não se pretendem coesos e absolutos, mas que dialogam plenamente com o contexto contemporâneo da Modernidade Tardia e sua característica de transformações mais aceleradas. Essa flexibilidade metodológica, caracterizada pela possibilidade, não de apenas encontrar as semelhanças das relações de poder e saber de épocas distintas, mas sim, entender através das diferenças, dos deslocamentos de discursos de cada época, que a construção histórica não deve tratar de maneira uniforme e evolucionista o desenvolvimento histórico, como se entender o passado bastasse para projetar o futuro. Mas compreender ao inverso, pelas contradições e diferenças, também pode, de maneira menos estereotipada, compreender como o presente se constitui em relações menos delimitadas por cânones pré-estabelecidos, como se a história fosse apenas uma sequência de repetições, sem reformulações, sem reflexões, sem paradoxos que a ressignificam a cada momento.
No artigo, Método Científico e os Paradigmas da Pós-modernidade: Reflexão sobre um método arqueológico de análise da Comunicação (2024), de Dugnani, sugere-se o desenvolvimento de um esboço de método arqueológico da compreensão do presente, do momento contemporâneo, da Modernidade Tardia pela análise do uso e do advento dos meios de comunicação, principalmente, os meios de comunicação digitais. Esse esboço de método foi baseado nos estudos de Foucault (2012 e 1990) sobre a Arqueologia do Saber, a adaptação do método de Foucault feito por Agamben (2019) no livro Signatura Rerum (2019), e o cruzamento com a Teoria dos Meios de McLuhan (2016).
Caminhando nesse sentido, embora nesse artigo torne-se inviável construir integralmente esse método híbrido das Ciências da Comunicação, pretende-se, à partir, principalmente, das visões de Marshall McLuhan (2016) e a teoria dos meios; de Michel Foucault (1990) e sua Arqueologia do Saber; e de Giorgio Agamben (2019) e seu método baseado na relação entre paradigma, arqueologia e as assinaturas, sugerir um método que contemple a busca pelas epístemes (discursos e não discursos), pelos paradigmas que compõem a contemporaneidade, denominada no artigo como Pós-modernidade. (Dugnani, 2024, p. 139)
Dugnani (2024) observa nas reflexões de Agamben (2019) possibilidades de encontros entre a Arqueologia do Saber de Foucault (2012 e 1990) e a Teoria dos Meios de McLuhan. Agamben, em Signatura Rerum (2019) observa sobre o método da Arqueologia do Saber três problemas centrais, que são apresentados, também, em três capítulos diferentes: a questão do paradigma, da assinatura e da relação entre a história e a arqueologia.
Para Kuhn (1991) os paradigmas são “modelos, representações e interpretações de mundo” (Kuhn, 1991,
p. 13). Esses modelos são constituídos dentro de um determinado momento histórico e são utilizados para explicar fenômenos relativos a esse contexto, seja pela comunidade científica, como afirma Kuhn (1991), seja pela própria sociedade, como observa Agamben (2019). O que diferencia essa posição de Kuhn (1991) em relação à posição de Agamben (2019), que concorda com Foucault (2012 e 1990), é que para o primeiro, o paradigma tem relação com as questões epistemológicas (metodológicas) da ciência, porém para o segundo, é um duplo de questões, tanto epistemológicas e modelares, como de discursos da sociedade coletados e classificados em ordens que levem em consideração suas contradições e seus deslocamentos: “O paradigma foucaultiano é as duas coisas ao mesmo tempo: não apenas exemplar e modelo, que impõe a constituição de uma ciência normal, mas também e sobretudo exemplum, que permite reunir enunciados e práticas discursivas num novo conjunto inteligível e num novo contexto problemático” (Agamben, 2024, p. 23).
Já a assinatura, é tratada por Agamben (2019), como uma representação, um sinal, signos que revelam os significados e sentidos dos discursos de uma determinada época, mesmo que não sejam uniformes e circunscritos dentro de uma convenção lógica e rígida como os conceitos de signos (das teorias dos signos). A assinatura de uma época, se revela por dentro, pois carrega consigo os códigos para decifrar os discursos que representam o panorama de uma época, por isso, tanto para Agamben (2019), como para Foucault (2012 e 1990), um processo arqueológico que investiga o pensar de um momento histórico, é eficiente para revelar como os discursos se constituem no imaginário de determinada sociedade. Lembrando que, nesse movimento, leva-se em conta o pensar do presente, mas também os pensares do passado, mas sem considerá-los como a origem e causa do presente, mas sim, pelos seus deslocamentos, suas contradições, que acabam por formar a paisagem que faz revelar as relações de saber de uma época, através de seus discursos paradigmáticos. “A Assinatura é uma espécie de signo; é aquele índice que, no contexto de cada semiologia, remete univocamente a dada interpretação. A assinatura adere ao signo ao indicar, por meio de sua feitura, o código para decifrá-lo” (Agamben, 2019, p. 83).
Por causa disso, é que Agamben (2019) elege como terceiro problema do método arqueológico de Foucault, sua relação com a história, pois para o autor, a arqueologia é uma prática da investigação histórica, não fixada nas origens de seu passado, mas nos confrontos que as fontes revelam e que, muitas vezes, a tradição chega a eclipsar.
Podemos chamar provisoriamente de “arqueologia” aquela prática que, em toda investigação histórica, tem a ver não com a origem, mas com o ponto de insurgência do fenômeno, e deve, portanto, se confrontar novamente com as fontes e com a tradição. E não pode encarar a tradição sem descontruir os paradigmas, as técnicas e as práticas mediante as quais ela regula as formas da transmissão, condiciona o acesso às fontes e determina, em última análise, o próprio estatuto do sujeito cognoscente. (Agamben, 2019, p. 128).
A partir dessas reflexões é que Dugnani (2024) busca aproximar a Arqueologia do Saber (2012 e 1990) com as Teorias dos Meios de McLuhan (2016).
Tomando dois conceitos centrais de McLuhan (2016), o conceito de extensão e o conceito que relaciona meio de comunicação à mensagem (informação), Dugnani (2024) aproxima a Arqueologia do Saber à Teoria dos Meios, afirmando que McLuhan (2016) cria uma verdadeira arqueologia cultural dos meios. Para entender essa aproximação, primeiro é preciso partir da máxima de que os meios de comunicação, para além de transmitir mensagens, são agentes de transformação social. Sendo assim, McLuhan (2016) não entende o meio de comunicação, apenas como uma tecnologia, mas sim, como uma ferramenta que produz transformação na sociedade pelo seu uso. O uso dos meios seria um catalizador das transformações sociais.
[...] os meios, seu uso, e a própria tecnologia, acabam por interferir com as práticas discursivas de cada época, tornando-se, para McLuhan (2016), informação pura, dessa forma, os meios acabam por compor os paradigmas de sua época. Por isso é possível aproximar o método arqueológico de Foucault (1990) e Agamben (2019) do método dos estudos dos meios de comunicação de McLuhan (2016). (Dugnani, 2024, p. 144)
Os meios de comunicação, para McLuhan (2016), são agentes de transformação social, pois são, primeiramente, extensões da percepção humana, fazendo com que esse humano possa acessar informações, para além dos limites biológicos de seus sentidos. A visão é estendida pelas telas, a audição pelos fones, e assim por diante, por isso os meios são extensões do humano. Além disso, para McLuhan (2016), o meio de comunicação é considerado mensagem, informação, ou seja, como define melhor o pesquisador canadense: os meios são informações puras. O meio é informação pura, pois independe de um código, não se trata da mensagem transmitida, mas sim do próprio meio. O meio é informação pura, pois tanto informação, quanto meios de comunicação produzem transformações na organização da sociedade. A informação altera comportamento e consciência através de suas mensagens que são transmitidas pelos meios de comunicação (Coelho, 2012), mas os meios, também, produzem alterações no comportamento e consciência, não apenas pelas mensagens que transmitem, mas pelo uso que se faz dessa tecnologia. Parafraseando McLuhan (2016), o humano cria os meios e os meios recriam o humano, pois, a cada nova tecnologia de comunicação introduzida num sistema social, transformações são sentidas, a partir, simplesmente, do uso dos meios. Por causa disso que o meio é informação pura, por isso o meio é mensagem para McLuhan (2016).
Sendo assim, ao afirmar que o meio é mensagem, que o meio é informação, que o meio é informação pura, também é possível confirmar que o meio, e a tecnologia que ele introduz na sociedade, é um paradigma, um discurso que ajuda a compor o panorama que se vislumbra de diferentes épocas. Por causa disso que Dugnani (2024) busca a aproximação entre a Arqueologia do Saber e a Teoria dos Meios, ele entende que os meios compõem os saberes, como paradigmas e como assinaturas de uma determinada época, podendo revelar, tanto as constantes, como os deslocamentos que compõem os discursos de cada período, concordando, assim, pelo viés dos meios, com Foucault (2012 e 1990) e Agamben (2019).
Partindo do cruzamento entre a Arqueologia do Saber com a Teoria dos Meios é que se pretendeu verificar se é possível encontrar um ponto de encontro entre o método genealógico de análise das relações de poder de Foucault (2005 e 1984), com as reflexões feitas sobre o uso dos meios de comunicação e as transformações produzidas na sociedade, desenvolvida por McLuhan (2016).
Para Foucault (1984) a Arqueologia do saber seria o método, propriamente dito, de análise dos discursos, então, a Genealogia do Poder seria a técnica de ativação desses saberes. Como exemplo, no livro Vigiar e Punir (2005), Foucault esclarece como a relação de determinados discursos de saberes, ativam a prática do poder, no caso, o da punição: “Um saber, técnicas, discursos “científicos” se formam e se entrelaçam com a prática do poder de punir” (Foucault, 2005, p. 26).
A genealogia seria, portanto, com relação ao projeto de uma inscrição dos saberes na hierarquia de poderes próprios à ciência, um empreendimento para libertar da sujeição os saberes históricos, isto é, torná-los capazes de oposição e de luta contra a coerção de um discurso teórico, unitário, formal e científico. A reativação dos saberes locais − menores, diria talvez Deleuze − contra a hierarquização científica do conhecimento e seus efeitos intrínsecos de poder, eis o projeto destas genealogias desordenadas e fragmentárias. Enquanto a arqueologia é o método próprio à análise da discursividade local, a genealogia é a tática que, a partir da discursividade local assim descrita, ativa os saberes libertos da sujeição que emergem desta discursividade. Isto para situar o projeto geral. (Foucault, 1984, p. 97)
Sendo assim, é possível conceituar, a partir das visões de Foucault (1984), Garland (2014) e Prado Filho (2017), a Genealogia do Poder como sendo um método para analisar as relações das microfísicas do poder.
A microfísica do poder é onde se organizam e disseminam os discursos de uma determinada época. Onde ocorrem as tensões entre esses discursos, seus deslocamentos e suas contradições. Uma espécie de lócus, menos no sentido físico, e, mais no sentido simbólico. Um que se representa como signo ao mesmo tempo que é representado por instituições, as quais podem ser até delimitadas, aparentemente, por um espaço físico, como igrejas, manicômios ou hospitais, mas que, são capôs mediadores de saberes e poderes que constituem o discurso de determinada época. Esses espaços, são na verdade discursos, ou como denomina Lyotard (2000) e Dominic Strinati (1999), são metanarrativas, expressões do pensamento humano de uma época que estão projetados nas expressões humanas, sejam nos discursos e na própria forma como se constitui as organizações sociais (família, política etc.), sejam nas expressões materializadas pela arte ou arquitetura. Sendo assim, a microfísica do poder se projeta e é representada tanto no campo das ideias como no campo material das expressões humanas. A microfísica do poder é mais do que um local, são as tensões entre as relações em si e se representam tanto nas ações, quanto na forma de pensar e na materialidade dos significantes que o humano usa para expressar os significados que se constituem em cada época.
É nesse locus aonde as microfísicas do poder ativam as práticas do poder e tensionam os discursos, os quais acabam por constituir a organização e expressão social em cada época, que é possível, segundo Prado Filho (2017, p.13), a organização de uma história crítica e, mesmo, o desenvolvimento de um panorama para uma história do Presente.
Esse lócus é preenchido por corpos disciplinados, pelos deslocamentos e contradições dos discursos e não apenas pelo uniforme desenvolver de uma sociedade, como afirmava a visão positivista de A. Comte: “A análise genealógica delineia como práticas e instituições contemporâneas surgiram de específicos conflitos, lutas, alianças e exercícios de poder, muitos dos quais estão esquecidos atualmente” (Garland, 2014, p. 83).
Essas relações de poder seriam delineadas, apresentadas, organizadas por aquilo que Foucault (2005 e 1984) denomina como dispositivo ou aparato: “O dispositivo, portanto, está sempre inscrito em um jogo de poder, estando sempre, no entanto, ligado a uma ou a configurações de saber que dele nascem, mas que igualmente o condicionam. E isto, o dispositivo: estratégias de relações de força sustentando tipos de saber e sendo sustentadas por eles” (Foucault, 2005, p. 246). Sendo assim, entende-se o dispositivo como sendo, simultaneamente, os catalizadores e depositários dos discursos que são tensionados e projetados na microfísica do poder.
Partindo dessa questão, um dos conceitos centrais para se compreender a Genealogia do Poder de Foucault (2005 e 1984) é o conceito de dispositivo (ou aparato), e, para essa reflexão, se torna fundamental, pois através da compreensão desse conceito, é que se pretende realizar a aproximação entre a Genealogia do Poder de Foucault e a Teoria dos Meios de McLuhan.
Como discutido anteriormente, muitas vezes Foucault (2005 e 1984) não deixa seus conceitos tão fechados, até mesmo pelo tipo de análise que pretende realizar, pois não é na uniformidade do desenvolvimento de discursos que ele se fundamenta, mas pelo contrário, são nos deslocamentos que ele acredita que se constitui os paradigmas de uma determinada época. Por isso, será iniciado o debate sobre o conceito de dispositivo, pela visão de Agamben (2019), que busca revisar e ampliar a compreensão do método arqueológico de Foucault (2012 e 1990), como dito anteriormente.
Para Agamben (2019), de maneira filosófica, o dispositivo é qualquer coisa, ou melhor delimitando, qualquer fenômeno, seja físico ou virtual, que transforma os comportamentos e a consciência nas relações sociais. Para esse artigo, os dispositivos são catalisadores, ou seja, possibilitam que as microfísicas do poder possam se ativar e serem ativadas, possam representar e serem representadas, consecutivamente, pelos discursos que formam a doxa (Barthes, 1999) de uma determinada época.
Expandindo ainda mais a já grande classe de aparatos foucaultianos, chamarei de aparato literalmente qualquer coisa que tenha de alguma forma a capacidade de capturar, orientar, determinar, interceptar, modelar, controlar ou assegurar os gestos, comportamentos, opiniões ou discursos de seres vivos. Não apenas, portanto, prisões, manicômios, panópticos, escolas, confessionários, fábricas, disciplinas, medidas judiciais e assim por diante (cuja conexão com o poder é em certo sentido evidente), mas também a caneta, a escrita, a literatura, a filosofia, a agricultura, os cigarros, a navegação, os computadores, os telefones celulares e - por que não - a própria linguagem, que talvez seja o mais antigo dos aparatos - aquele em que há milhares e milhares de anos um primata inadvertidamente se deixou capturar, provavelmente sem perceber as consequências de que ele estava prestes a enfrentar. (Agamben, 2019, p. 08)
Sendo assim, tanto para Agamben (2019), quanto para Foucault (2005 e 1984), como para seus interlocutores como Garland (2014) ou Prado Filho (2017), o dispositivo tem características bastante semelhantes. Os dispositivos se organizam dentro de espacialidades e virtualidades, muito mais como discursos institucionais, como aquelas modalidades que a representam, do que por sua materialidade propriamente. Caracterizam-se os dispositivos como um conjunto heterogêneo que se constitui em formas extremamente variadas, mas que se revelam nas relações e tensões onde os discursos circulam para constituir-se em paradigmas. São considerados dispositivos (e longe de querer esgotar em um parágrafo a lista de definições): instituições, conceitos científicos, hospitais, manicômios, escolas, as leis (e toda jurisprudência), a razão, a literatura (e toda a linguagem), a arquitetura, as ideias ligadas à moral, filosofia, ética... de modo geral, todo o conhecimento formado e organizado durante a história do ser humano. Enfim, como Garland (2014, p. 91) delimita, quando se se refere ao dispositivo para Foucault (2005 e 1984), é que se trata de “um complexo conjunto de normas, saberes, relações de poder e práticas”.
Nessa abrangente delimitação, que se engloba o conceito de dispositivo, é que se busca aproximar a Teoria dos Meios de McLuhan (2106) à genealogia do poder de Foucault (2005 e 1984). Ou seja, para iniciar um possível método híbrido, que possa ser utilizado para analisar a organização contemporânea, dita tardo moderna, pelo viés do uso dos meios e as relações de poder é preciso relacionar o conceito de dispositivo de Foucault (2005 e 1984), com a visão de McLuhan (2016) em relação aos meios de comunicação como agentes ativos e transformadores da Sociedade. Pode-se até pensar, parafraseando, novamente Mcluhan (2016), o dispositivo é um meio, é informação pura, por isso o humano cria o dispositivo e o dispositivo recria o humano.
Como se pode observar no conceito apresentado por Agamben (2019), os meios de comunicação podem ser considerados dispositivos (ou aparatos), tanto como tecnologia, como pelo seu uso: “(...) os computadores, os telefones celulares e - por que não - a própria linguagem (...)” (Agamben, 2019, p. 08).
Ou seja, é possível considerar os meios de comunicação como dispositivos, num primeiro momento, principalmente por possibilitar em seu ato de transmitir mensagens, um lócus onde a microfísica do poder se vê presente no tensionamento dos discursos. Porém, além disso, a partir da visão de McLuhan (2016), como dito anteriormente, para além de transmissores de informação, os meios são extensões da percepção humana e agentes de transformação social, dessa forma, confirmando a hipótese, também são, por esse segundo motivo, lócus onde os discursos se tensionam dentro de uma microfísica do poder,
sendo assim dispositivos, aproximando-se, assim das reflexões de Foucault (2005 e 1984) e de Agamben (2019).
Por isso, partindo desse ponto de aproximação, onde os meios de comunicação são dispositivos, é que será possível aproximar a Genealogia do Poder de Foucault (2005 e 1984) e a Teoria dos Meios de McLuhan (2016), para desenvolver uma análise que possa desenvolver um método, que seja capaz de revelar os paradigmas e assinaturas que compõem o momento presente e suas microfísicas do poder, partindo dos tensionamentos dos discursos causados, seja pela transmissão de informação, seja pelo uso dos meios.
Os estudos dos meios de comunicação como dispositivos poderão abrir caminho para o desenvolvimento de uma história do presente, onde essas ferramentas tecnológicas ajudem a desvelar um panorama no qual seja possível reconstituir através dos tensionamentos dos discursos, sejam dos saberes, sejam das relações de poder, os paradigmas que compõem o cenário da Modernidade Tardia, ajudando a decifrar as relações de saberes e poderes que se projetam sobre a organização social e expressão humana.
Uma história do presente, sem que ela seja, apenas, uma projeção do passado, um resultado evolutivo, uniforme, determinado e positivista de questões da antiguidade.
Um método de análise da Modernidade Tardia ou, se preferir, do momento contemporâneo, que apresente os tensionamentos dos discursos, seus deslocamentos, como uma maneira de construir uma visão analítica e histórica do presente. Um método que entenda os meios de comunicação como aparatos, dispositivos, que produzem tensionamentos nas relações das microfísicas do poder, por isso provocam transformações na sociedade.
Essas são as questões que norteiam esse artigo na procura de indícios que possam indicar a direção para o desenvolvimento de um método que possa abarcar a Genealogia do Poder de Foucault (2005 e 1984) e a Teoria dos Meios de McLuhan (2016). Tendo essa premissa como base, procurou-se encontrar pontos de convergência que pudessem indicar a possibilidade de aproximação das duas teorias, vencendo um certo distanciamento epistemológico que num primeiro momento elas possam apresentar.
Partindo para essa procura, como um primeiro passo, para encontrar um ponto de cruzamento entre essas duas teorias, foi feito um levantamento dos principais conceitos que envolvem, de Foucault (2012, 2005, 1990, 1984), tanto na Arqueologia do Saber, como na Genealogia do Poder. Para complementar esse levantamento sobre os conceitos de Foucault (2012, 2005, 1990, 1984), buscou-se em autores como Agamben (2019), Garland (2017) e Prado Filho (2014), novas visões sobre o entendimento das ideias do pesquisador francês. De McLuhan (2016) e sua Teoria dos Meios, se destacaram, principalmente duas ideias, para relacionar com o método de Foucault (2012, 2005, 1990, 1984): a ideia dos meios como extensões do humano, e a ideia de que o meio é informação pura, ou seja, agente que produz transformações na sociedade.
Embora as teorias aparentem ser tão dispares (afinal a Teoria dos Meios tem origem no Funcionalismo, enquanto os métodos de Foucault são de origem pós-estruturalistas), foi crucial observar se em algum ponto elas se tangenciavam, para verificar se esse método poderia ser constituído sem esbarrar em problemas epistemológicos insolúveis.
Por causa dessas reflexões e buscas, entendeu-se que o conceito de dispositivo da Genealogia do Poder de Foucault (2005 e 1984), poderia ser esse ponto que possibilita o cruzamento dessa teoria, com a Teoria dos Meios de McLuhan (2016).
Com essa verificação, percebeu-se que esse cruzamento é possível, como se debateu no texto. Contudo, ele é possível, partindo do princípio de que os meios de comunicação são dispositivos que tensionam os discursos nas microfísicas do poder, revelando os deslocamentos históricos, que, para Foucault (2005 e
1984), são fundamentais para a análise dos paradigmas e assinaturas que constituem o momento contemporâneo, a Modernidade Tardia.
Desse modo, pretende-se que esse primeiro estudo possa servir de base para o desenvolvimento de um método para a análise da história presente, partindo do cruzamento da Genealogia do Poder e a Teoria dos Meios. Embora não fosse objetivo dessa reflexão desenvolver esse método, pois essa tarefa precisa de muito mais tempo, e muito mais espaço que esse artigo poderia dar, fica como a próxima tarefa, buscar novos indícios que contribuam com o desenvolvimento metodológico desse tipo de análise, para criar uma nova ferramenta, para uma análise do presente, sem que ela pareça apenas uma projeção do passado.
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