CINE Y CIENCIA

Prometeica. Revista de Filosofía y Ciencias, año IV, N. 10, verano 2015



A MORTE E O MORRER NOS FILMES LOVE STORY


E A CULPA É DAS ESTRELAS


Death and Dying in the Films Love Story


and The Fault in Our Stars


ADILSON SILVA OLIVEIRA


(UNIP, Brasil)


Resumo


Este texto apresenta breves considerações acerca da morte e do morrer, com base, sobremaneira, nos posicionamentos de Kübler-Ross (2012). A teoria está dividida em duas partes: significações da morte e do morrer para diferentes culturas e apresentação sucinta dos cinco estágios pelos quais passa um paciente terminal – negação/isolamento, raiva, barganha, depressão e aceitação. Analisam-se os filmes “Love story”, de Arthur Hiller, e “A culpa é das estrelas”, de Josh Boone, no tocante à temática da morte e do morrer.

Palavras-chave: morte | estágios do morrer | Love story | A culpa é das estrelas.


Abstract


This work presents brief considerations on death and dying, greatly based on the placements of Kübler-Ross (2012). The theory is divided into two parts: the meanings of death and dying for different cultures and a brief presentation of the five stages through which passes a terminal patient – denial, anger, bargaining, depression and acceptance. Analyzes the movies “Love story”, by Arthur Hiller, and "The fault in our stars", by Josh Boone, regarding the theme of death and dying.

Keywords: Death | Stages of Grief | Love story | The Fault in Our Stars.


Introdução


Os filmes “Love story”, de Arthur Hiller, e “A culpa é das estrelas”, de Josh Boone, são grandes histórias de amor e de morte. O primeiro filme, baseado em livro homônimo de Erich Segal, conta a história de amor de Oliver Barrett IV e Jennifer Cavallieri, vividos pelos atores Ryan O’Neal e Ali MacGraw. Os dois jovens são estudantes de faculdades distintas. Ele é rico, de família influente; ela, pobre. Lançado em 1970, o filme apresenta a descoberta do amor sob a perspectiva de Oliver, pois é ele quem narra a história e os conflitos advindos das diferenças sociais entre as suas famílias. Na primeira cena, o rapaz, em off, autoquestiona-se: “O que se pode dizer sobre uma garota de vinte e cinco anos que morreu?”. Essa premissa conduz o espectador a sentir a pulsação do amor e da morte em todo o enredo.

O segundo filme – “A culpa é das estrelas” –, baseado no best seller de John Green, narra a história de amor dos adolescentes Hazel Grace Lancaster e Augustus Waters, interpretados pelos atores Shailene Woodley e Ansel Elgort. Lançado em 2014, este filme é narrado sob a perspectiva feminina, pois é Hazel quem conta a história. Diagnosticada com câncer, a adolescente mantém-se viva graças a uma droga experimental e à luta de toda a família para que ela tenha uma sobrevida e recupere-se de uma depressão. Para tanto, a garota é forçada pelos pais a participar de um grupo de apoio cristão, no qual estabelece contato com outros jovens que, como ela, enfrentam problemas provenientes de diferentes tipos de cânceres. Lá, ela conhece Augustus e se apaixona pelas diferentes visões de mundo que ele lhe apresenta. A iminência da morte acompanha a trajetória dos dois desde muito novos. A aceitação da morte é posta em cheque quando eles descobrem o amor e se apegam à possibilidade de vivê-lo intensamente.

Os dois filmes são, apesar da temática da morte, histórias de vida. Neles, os jovens experimentam a descoberta do amor e de uma nova visão de mundo. Em Love story, Oliver e Jenny permitem-se viver a realidade do outro; em A


culpa é das estrelas, o mergulho no universo de Augustus salva Hazel de uma depressão.


Representações da morte


Neste tópico, o tema morte será vislumbrado sob dois aspectos. No primeiro, apresentam-se breves e esparsas considerações sobre a morte. Não se pretende seguir, necessariamente, uma temporalidade lógica para essas considerações. No segundo, o enfoque recairá sobre as fases pelas quais passa um paciente terminal: negação/isolamento, raiva, barganha, depressão e aceitação. Este texto terá como base, sobremaneira, os posicionamentos teóricos de Kübler- Ross (2012).


A morte e o morrer


A morte e o morrer são eventos não apenas biológicos, mas também eventos de dimensão religiosa, social, filosófica, antropológica etc. Santos (2007) aponta que o significado da morte e os mistérios que a envolvem são preocupações centrais para o ser humano em todas as culturas e desde os tempos mais remotos. Morin (apud SANTOS, 2007), citando a relação do homem primitivo com a morte, diz que


nas consciências arcaicas em que as experiências elementares do mundo são as das metamorfoses, das desaparições e das reaparições, das transmutações, toda morte anuncia um renascimento, todo nascimento provém de uma morte – e o ciclo da vida humana inscreve-se nos ciclos naturais de morte/renascimento. (p. 15).


A origem da morte, quer para as sociedades antigas, quer para as sociedades modernas, é explicada por meio de narrativas míticas. Todas as


sociedades desenvolveram sistemas fúnebres por meio dos quais aspectos sociais e pessoais podem ser entendidos. Para os egípcios da Antiguidade, por exemplo, a preocupação com a morte refletia-se na arte, na religião e nas ciências. A ideia de transcendência é fortemente arraigada na cultura egípcia, tanto que o corpo dos mortos era preservado para que os seus espíritos pudessem habitá-lo novamente no futuro.

No tocante à temática da morte, outra contribuição essencial é a de Sócrates que, embora não tenha escrito absolutamente nada sobre o assunto, deixou ecos do que pensava sobre a morte. Os posicionamentos do “príncipe dos filósofos” foram fornecidos por Platão, seu discípulo. (Cf. SANTOS, 2007, p. 16). Para Sócrates, o “propósito da filosofia era descobrir o significado da vida em relação à morte”. (SANTOS, 2007, p. 16). O grande filósofo era aquele que praticava a arte de morrer o tempo todo: aceitar a morte como a separação entre alma, que continua a existir, e corpo, que cessa. Esse posicionamento metafísico socrático reverbera nos posicionamentos de outros filósofos. Ricoeur (2012), por exemplo, enumera ideias sobre a morte por meio de questionamentos: Os mortos também continuam existindo no mesmo tempo cronológico dos vivos? O que são os mortos? O que vem depois da morte? As perguntas têm valor retórico, pois não se chega a uma resposta consensual sobre elas.

A morte e o morrer são eventos que sempre suscitaram e suscitam questionamentos, pois estão imersos em mistérios. Eles são vistos de formas diferentes em diferentes culturas e épocas. No século XX, sobretudo a partir da segunda metade, ocorre uma mudança significativa na forma como o Ocidente lida com a morte, a qual deixa de ser familiar e torna-se um objeto inderdito. Segundo Kübler-Ross (2012), há um processo de desfamiliarização da morte. O impulso dessa transformação deve-se à transferência do local mortis, visto que já não se morre no próprio domicílio, próximo aos familiares, mas sozinho no hospital.


Morrer se torna um ato solitário e impessoal porque o paciente não raro é removido de seu ambiente familiar e levado às pressas para uma sala de emergência. (KÜBLER- ROSS, 2012, p. 12).


Além da morte propriamente dita, outros fatores também devem ser levados em consideração: os cerimoniais funerários são mais discretos, condolências breves e encurtamento no período de luto. O velório, por exemplo, deixa de ser realizado na casa da família, na qual antes o corpo ficava exposto e era visitado pelos familiares e amigos, pois cada vez menos é tolerada a presença do morto em casa, tanto em função de questões de higiene quanto por falta de condições psicológicas de vivenciar essa situação. Em função disso, há uma negação da experiência da morte e do morrer, os quais são tratados como tabu.

De acordo com Carvalho (2011), evita-se, na contemporaneidade, falar de morte, bem como de tudo que a envolve, pois isto conduz à ideia da própria finitude humana. O homem é, segundo Schopenhauer (2001), o único animal metafísico, o único que tem consciência da própria morte de forma antecipada. Quando não se pode fugir do assunto, é comum a recorrência a metáforas eufemísticas para explicar o término da vida: morte é descanso, é viagem etc. Para Giacoia Jr. (2005),


a morte é vista, antes de tudo, como transpasse, travessia, ultrapassagem de fronteira, de modo que os cerimoniais fúnebres e as diferentes formas de edificações, inscrições funerárias, toda a ideologia presente nas representações pictóricas e esculturais da morte assumem a mesma função social de partes integrantes de rituais de passagem. Por meio delas, o defunto é conduzido na travessia para o outro lado, para a outra margem da existência. (p. 14).


Até a primeira metade do século XX, segundo autores como Kübler-Ross (2912) e Carvalho (2011), a morte era “domesticada”, “familiar”, pois havia intimidade entre o morrer e o cotidiano da sociedade, de forma que este ato era encarado de forma natural, como mais uma etapa da vida. Era comum ao doente a realização de ritos de passagem como, por exemplo, a despedida dos entes próximos, reconciliação com familiares e amigos e exposição dos últimos desejos. O sofrimento do morrer aproximava o enfermo do plano celestial como uma forma de extirpar os pecados. A morte súbita, ao contrário, era vista como castigo divino, pois inviabilizava o processo do morrer.


Durante o longo período da Idade Média, a morte e o morrer sofreram diversas mudanças. Os mortos, conforme atesta Caputo (2008),


eram enterrados somente com os sudários (sem caixão) em grandes valas, nas quais eram depositados vários cadáveres, nesta época não se tinha a necessidade de um túmulo próprio para o morto, o qual seria sua propriedade perpétua. (p. 76).


O cemitério e a igreja, normalmente, eram construídos próximos, visto que os mortos eram enterrados tanto no interior das igrejas quanto no seu pátio. Os mortos de família abastada eram enterrados dentro das igrejas, pois, assim, estavam mais próximos dos santos e, portanto, protegidos dos males terrenos. Os pobres eram enterrados nos cemitérios.

A partir do século XII, ocorreram mudanças significativas nas representações da morte no Ocidente. A certeza cede espaço para a incerteza, uma vez que


cabia à Igreja intermediar o acesso da alma ao paraíso e o julgamento final deixava de ser visto como evento que ocorreria nos Tempos Finais e passa a ser visto como um evento que aconteceria imediatamente após a morte e resultaria na descida ao inferno (no sofrimento eterno) ou a ascensão aos céus (na alegria eterna) e isso dependeria da conduta do moribundo antes da morte. (CAPUTO, 2008, p. 76).


Essas mudanças causaram alterações nas perspectivas das pessoas em relação à morte, deixando de ser algo natural e passando a ser uma provação.

No início da Idade Média, de acordo com Caputo (2008), não é legitimado perder o controle e chorar os mortos. O corpo do defunto, antes tão familiar, passa a se tornar insuportável. Durante séculos, ele vai ser ocultado numa caixa sob um monumento, no qual não será mais visível.


Pouco tempo depois da morte e no próprio local desta, o corpo do defunto era completamente cosido na mortalha, da cabeça aos pés, de tal modo que nada aparecia do que ele fora, e em seguida era fechado numa caixa de madeira ou cercueil (caixão). (ARIÈS apud CAPUTO, 2008, p. 77).


Na Idade Moderna, a partir do século XVIII, as atitudes do homem perante a morte alteram-se mais uma vez. Ela adquire uma aura romantizada e o homem deste período passa a ter complacência com a ideia da morte. Há uma ruptura no processo do morrer, no qual o homem era arrancado de sua vida cotidiana e lançado num mundo irracional, violento e cruel, ocorrendo uma separação entre a vida e a morte, havendo uma laicização desta última.

As igrejas deixaram de ser o local dos enterramentos, os quais passaram a ocorrer em cemitérios, construídos às margens da cidade, marcando, dessa forma, uma dicotomia entre vivos e mortos.

O século XX, sobretudo a partir da segunda metade, representa uma mudança no tocante à morte e ao morrer. Os avanços na medicina possibilitam o retardamento do óbito, mas tiram dos doentes, conforme já salientado neste tópico, a possiblidade de morrer junto aos seus familiares.


1.2 Estágios do morrer


A autora Kübler-Ross (2012), por meio de uma pesquisa de campo com mais de duzentos pacientes em estado terminal, estabelece cinco estágios que caracterizam a postura desses moribundos, bem como de seus entes próximos, diante da iminência da morte: negação/isolamento, raiva, barganha, depressão e aceitação, os quais serão apresentados em linhas gerais.

A Negação/isolamento constitui-se o primeiro estágio e tem como frase característica: “Não, não pode ser verdade”. A negação alivia o impacto da notícia, servindo como uma defesa a seu equilíbrio. Ela é seguida por um isolamento, um querer estar só.


A Raiva é o segundo estágio e vem, normalmente, acompanhada da frase: “Por que eu?”. Nessa fase, o paciente já assimilou o seu diagnóstico. A negação é substituída por sentimentos de raiva, de revolta, de inveja e de ressentimento. O paciente tenta arranjar um culpado por sua enfermidade.

A Barganha é o terceiro estágio e tem como frase característica: “Se Deus decidiu levar-me deste mundo e não atendeu a meus apelos cheios de ira, talvez seja mais condescendente se eu apelar com calma”. Nessa fase, há uma tentativa de negociar o prazo da morte, por meio, por exemplo, de promessas e orações.

A Depressão é o quarto estágio e tem como característica o silêncio ou o abaixamento do tom de voz. O paciente terminal aceita o seu fim iminente, fazendo uma revisão da vida e mostrando-se mais introspectivo.

A Aceitação, por fim, é o quinto estágio e caracteriza-se por frases como: “O que adianta?”, “Não aguento mais lutar”. A aceitação não é um estágio de felicidade, mas uma fuga de sentimentos, uma resignação. Nessa fase, o paciente procura terminar o que deixou pela metade, fazer suas despedidas e se preparar para morrer.


A morte e o morrer nos filmes Love story e A culpa é das estrelas


A morte e o morrer são o foco da análise aqui empreendida. É inevitável que se explicite o final dos filmes “Love story” e “A culpa é das estrelas”. No filme de Hiller, Jennifer Cavallieri morre de leucemia nos braços do seu grande amor Oliver Barrett IV. No filme de Boone, quem morre é Augustus Waters, vitimado por um câncer que, como uma árvore de natal, iluminara luzes por todo o seu corpo.

O filme “Love story” narra a história de amor do casal Oliver, jovem estudante de família abastada, e Jenny, jovem pobre. A primeira cena do filme mostra o protagonista-narrador sentado com a neve caindo sobre si. Sua voz, em off, pergunta:


O que se pode dizer de uma moça de vinte e cinco anos que morreu? Que era bela. E brilhante. Que gostava de Mozart e Bach. E dos Beatles. E de mim.


Assistindo a essa primeira cena, pode-se presumir que o filme será deprimente, mas o que se vê é uma história de amor e de vida. Oliver luta contra a sua família e contra a sua condição social para assumir o seu amor por uma moça de origem humilde. Todo o filme, com exceção das cenas finais, ilumina essa história de amor.

O drama fúnebre do casal inicia-se em uma visita ao médico quando tanto Oliver quanto Jenny querem saber o porquê da dificuldade em engravidar. O médico esconde da paciente o seu diagnóstico, mas o revela a Oliver:


Oliver, o problema é mais grave do que você pensa. Jenny está muito doente.

Ela está morrendo.


No livro homônimo há uma referência à palavra “leucemia”. No filme, em momento algum o nome da doença é citado. Isso reforça o fato de o câncer ser visto como doença maldita. É uma patologia que se reveste de estigmas, sendo associada a uma sentença de morte e podendo ocorrer, de forma inesperada, em algum momento da vida de uma pessoa. Essa doença interfere em seus hábitos, costumes, integridade física e ciclo biológico. No filme, deduz-se que seja câncer, pois o médico iria encaminhar Jenny a um hematologista.

Ao saber do estado de saúde de sua esposa, Oliver passa por todos os estágios preconizados por Kübler-Ross (2012):


Estágio

Análise

Negação/


isolamento

_É impossível!


_O senhor deve


ter


cometido


algum



engano.


_Talvez aquela enfermeira imbecil tivesse errado mesmo e lhe mostrasse a radiografia de outra pessoa.


(Fez sinal com a mão a fim de interromper o médico e ficou um tempo em silêncio).


Ao saber do estado de saúde de Jenny, Oliver nega que isso seja possível. Por um momento, desejou que fosse pilhéria de mau gosto do médico.

Raiva

_Mas ela tem vinte e quatro anos apenas! (gritando).


_Normal! Normal? (alterado).


O aumento do tom de voz de Oliver caracteriza o estágio Raiva; ele sente-se impotente em relação ao problema de saúde de sua amada.

Barganha

(em off) Não me incomodo com minha agonia, não me incomodo de saber, contanto que Jenny não saiba. Pode ser, Senhor? Pode dizer qual é o preço.


A Barganha é uma espécie de negociação. Oliver trava um diálogo com Deus, oferecendo-lhe dinheiro em troca da não agonia de Jenny. Ele quer que a amada não saiba do grave problema de saúde.

É importante frisar que Oliver é atéu. No momento em que descobre o diagnóstico de Jennifer, ele estabelece uma interação

– por vezes furiosa, por vezes



complacente – com Deus.

Depressão

Não dói nada Ollie (murmúrio). É como cair do alto num precipício em câmera lenta. (Jenny).


_Você não sabe o que é cair num precipício, preppie. (Jenny).


_Não quero você no meu maldito leito de morte. (Jenny).


Jenny e Oliver passam longos períodos em silêncio; quando falam, o tom da voz é sempre mais baixo.

Aceitação

Você, afinal de contas, será o viúvo alegre. (Jenny).


A Aceitação é o último estágio e se caracteriza por uma certa resignação. Diante da imponderabilidade, não há mais nada o que se possa fazer. Jenny e Oliver aceitam a morte.


Os estágios são vividos por Jenny, acometida pelo câncer, mas também por Oliver. Os entes próximos, normalmente, somantizam os efeitos do morrer. No caso do filme “Love story”, a história é narrada na perspectiva de Oliver. É por meio dele que acompanhamos o morrer de Jenny, desde o momento em que ele descobre a doença da esposa até a morte propriamente dita no quarto do hospital, abraçada ao marido. Embora o filme não contemple, Jenny também vive os cinco estágios do morrer.

O filme “A culpa é das estrelas” narra a história de amor do jovem casal Hazel Grace Lancaster e Augustus Waters, unido pela morte. Os dois adolescentes, vitimados por cânceres agressivos, se conhecem em uma sessão de autoajuda de um grupo de apoio cristão. Hazel, a contragosto, participa desse

grupo para se livrar de uma aparente depressão. Augustus é convidado por um

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amigo a fazer parte do grupo. O primeiro contato dos dois não é amistoso, pois Hazel preocupa-se apenas com a dor que poderá causar aos outros; já Augustus sonha em deixar a sua própria marca no mundo e ser lembrado, depois de sua morte, como herói.

Os estágios do morrer neste filme estão presentes em todo o enredo. A morte pulsa em cada cena. A história começa com a depressão de Hazel, mas em flashbacks, é possível perceber outros estágios. Há recaídas constantes na saúde de Hazel e de Augustus e, portanto, a iminência da morte faz com que os estágios se repitam.


Estágio

Análise

Negação/ isolamento

A negação da doença por parte de Hazel e de seus pais acontece antes da narrativa do filme. A história inicia-se com a depressão e a aceitação.

Hazel, antes de conhecer Augustus, é solitária. Seus grandes amigos são os seus pais e o escritor Peter Van Houten.

Com a descoberta do amor, Hazel e Augustus negam a morte com a intenção de prolongar a vida e viver o sentimento que os une.

Raiva

Hazel fica enfurecida com Augustus quando coloca um cigarro entre os dentes.

Ela enfurece-se com os pais por eles, em função do seu câncer, não viverem a própria vida.

Barganha

A Barganha é uma espécie de negociação. Para viajarem para Amsterdã, Hazel e Augustus fazem algumas concessões e põem em risco a própria vida.

Depressão

Faltando pouco para eu completar meu décimo sétimo ano de vida, minha mãe resolveu que eu estava deprimida, provavelmente porque quase nunca saía de casa, passava horas na cama, lia o mesmo livro várias vezes, raramente comia e dedicava grande parte do meu abundante tempo livre pensando na morte.


Sempre que você lê um folheto, uma página da internet ou sei lá o que mais sobre o câncer, a depressão aparece na lista dos efeitos colaterais. Só que, na verdade, ela não é um efeito colateral do câncer. É um efeito colateral de se estar morrendo.


A primeira cena do filme mostra a relação de Hazel com a depressão.



Ela não tem ânimo para fazer nada. No decorrer do filme, a protagonista-narradora passa por outras crises que, geralmente, vêm acompanhadas pela depressão.

Aceitação

Está tudo bem, minha filha, descanse em paz. (mãe de Hazel em cena de flashback).


A Aceitação é o último estágio e se caracteriza por uma certa resignação. Diante da imponderabilidade, não há mais nada o que se possa fazer. Com o agravamento do quadro de saúde da filha, a mãe se despede dela. Por um “milagre” e pelas contribuições médicas, Hazel não morre naquele momento. A aceitação da morte perpassa todo o filme.


Os estágios pelos quais Hazel passa servem também para Augustus. Como a história é narrada pelo viés feminino, o quadro enfatiza a história da protagonista. Ela narra os seus dissabores e também os do amado. É ela que, ao final do filme, lê os discursos fúnebres de Augustus: o discurso ainda em vida e o discurso pós-morte.


Considerações finais


De forma geral, a morte é caracterizada pelo mistério, pela imponderabilidade e, consequentemente, pelo medo do desconhecido. Todos esses atributos da morte e do morrer constituem um desafio às mais distintas culturas, as quais buscam respostas nos mitos, nas religiões, na filosofia etc. A morte tem um papel decisivo na identidade coletiva de uma sociedade e não é apenas um fato biológico, mas um processo construído socialmente.

Neste texto, foram traçadas breves considerações sobre a morte, com ênfase direcionada para os estágios do morrer, conforme teoria de Kübler-Ross.



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