Escutando com o próprio corpo uma etnografia psicossocial da psicanálise não europeia
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Resumo
Este ensaio propõe a etnografia psicossocial como método para investigar práticas de escuta inventadas nas margens da psicanálise hegemônica, a partir de quatro anos de pesquisa de campo entre Brasil, Argentina e Inglaterra. O objetivo é analisar como coletivos psicanalíticos sul-americanos vêm desenvolvendo modos de escuta situada que emergem da porosidade dos sistemas de escuta aos movimentos migratórios, às urgências do mundo e às catástrofes ordinárias e extraordinárias. Para isso, o texto centraliza um relato de caderno de campo realizado em São Paulo, onde a autora acompanha um coletivo dedicado a “escutar a rua” no centro da cidade. Dialogando com a noção de “não-europeu” (Said, 2004) e com pensamentos feministas e anticoloniais, argumenta-se que essas práticas clínicas se organizam em torno da estrangeiridade — a alteridade radical que desfaz identidades transparentes e unitárias — e de processos de desalienação que mobilizam excessos, deslocamentos e migrações. A contribuição do artigo para o debate na área é metodológica e conceitual: ao adotar a “teoria da bolsa de ficção” (Le Guin, 2021) como abordagem, a pesquisa recolhe sementes de práticas de escuta, atentando para o que é discreto, sutil e fugidio, em vez de tentar um mapeamento abrangente, propondo que a porosidade da escuta não europeia, proposta por Said, atenta à quebra e ao vestígio, oferecendo recursos cruciais para imaginar práticas de cuidado emancipatórias em tempos de crises múltiplas e simultâneas.
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